domingo, 18 de julho de 2010

Talis vita, finis ita

Talis vita, finis ita
Pe. David Francisquini(*)

Posta a vocação para cuidar das almas, natural é que todos os chamados ao sacerdócio amem tal vocação e façam dela o eixo em torno do qual devem gravitar todos os seus ideais, preferências e atividades. O exemplo foi do próprio Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Aquele que nos chamou.
É lugar comum entre os formados na nossa santa religião, o papel da família numa sociedade digna desse nome. A família constitui o fundamento da ordem que deve reinar entre os homens criados à imagem e semelhança do Criador, para render-lhe glória nesta e na outra vida.
Com tais pressupostos, recordemos a cena de outros tempos, quando uma família se reunia junto a um altar para rezar um rosário, gesto que não raras vezes atraía muitas outras famílias naquele sagrado convívio, para se alimentarem do amor de Deus e do espírito de Fé.
Já antes da oração, enquanto os homens tratavam de seus negócios e afazeres, suas esposas trocavam notícias e a criançada brincava alegremente de rodas, separadas por sexo. Dessas famílias piedosas, quantas vocações brotavam para o sacerdócio e para os conventos?
Fruto típico e profícuo dessas famílias patriarcais foi a Madre Francisca de Jesus, fundadora, devotíssima de Nossa Senhora e de Jesus Sacramentado. Filha do Barão do Rio Negro, de Petrópolis, ela nos deixou belos exemplos de virtude ao morrer em odor de santidade.
Todos se sentiam na obrigação de se reunir e até mesmo organizar procissões com a participação da vizinhança, até o dia em que construíssem uma capela. A vida religiosa tinha tal impacto e força de propagação que, mesmo sem a presença do sacerdote, os católicos construíam oratórios, capelas, e até igrejas.
Assim nascia uma aldeia na Terra de Santa Cruz, que mais tarde seria cidade. Aquele monumento era o seu ponto de referência. Era outro mundo, outra época, outro povo que vivia sob a sombra da Cruz e bafejado pelas saudáveis influências da doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo.
A manifestação da piedade se encontrava centrada na freqüência aos Sacramentos e à oração, acompanhados dos atos de devoção. Não havia féretro que deixasse de passar pelo recinto sagrado da capela da aldeia, a fim de receber a bênção dos funerais com cuidado e devoção.
O contraste gritante com os nossos dias, quando os defuntos são transportados para o cemitério sem passar pela igreja, faz-nos lembrar a máxima latina: “Talis vita, finis ita”. Tal vida, tal morte! Como se viveu sem praticar a santa religião, assim também morreu e será sepultado.
No Brasil de outrora, a vida social girava em torno da Igreja: quer no batismo, na crisma, na primeira comunhão, nos matrimônios, na assistência à missa dominical, nas festas litúrgicas e religiosas, quer nos sepultamentos. Hoje, se o vigário não for zeloso, quase todos morrem sem assistência espiritual.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Sonho e pesadelo

Sonho e pesadelo (II)
 Pe. David Francisquini*
Escrevi – sob o título de “Sonho e pesadelo” – recente artigo em que procurei analisar o justo ideal de jovens que contraem matrimônio na perspectiva de iniciar uma família bem constituída, mas que não tardam a se deparar com obstáculos quase intransponíveis quanto à educação e à formação moral e religiosa dos filhos.

Em apressadas linhas, procurei dar nomes aos bois ao enquadrar os referidos obstáculos contrastando-os com a boa ordem das coisas criadas por Deus, recorrendo a um profundo estudo histórico e sociológico do insigne líder católico Professor Plinio Corrêa de Oliveira, consubstanciado na sua obra prima Revolução e Contra-Revolução.

Neste estudo, mundialmente conhecido, o autor demonstra que a atual crise que abala os alicerces da nossa sociedade é de origem religiosa e moral, tendo atingido, sobretudo, a civilização Ocidental e Cristã e depois se espalhou por todo o mundo. Não se pode entender, pois, a intricada situação da família descrita no referido artigo abstraindo-se dessa visão.

Muitas pessoas, diante dos alarmantes índices de violência e da vertiginosa expansão das drogas, bem como da dissolução da família e das concepções fora do casamento, recorrem a nós perguntando como proceder de modo equilibrado na educação e formação dos filhos, a fim de preservá-los dos perigos que campeiam.

Há algum tempo, a imprensa de Belo Horizonte registrou para a História entrevista com um assassino confesso. Entre outras perguntas, lhe questionaram sobre o que faria se fosse solto. Arrogante e duro de coração, ele respondeu que não estava arrependido dos crimes cometidos, que não procuraria trabalho, continuaria matando e roubando.

Em seguida, lhe perguntaram a razão de sua atitude e por que ele chegou a tal ponto, ao que ele respondeu com frieza: – “Tudo começou quando em menino cheguei em casa com um doce roubado no bar e minha mãe ao invés de me corrigir deu um sorriso”.

Salta aos olhos que uma concessão, por menor que possa parecer, pode trazer conseqüências desastrosas para o resto da vida. Pois nada de grande – quer no sentido do mal ou quer no sentido do bem – acontece repentinamente. O segredo para as famílias é a integridade na formação moral e religiosa de seus filhos.

Portanto, pais e educadores, no cumprimento de seus deveres estejam atentos para não fazer concessões à maldade e traquinagens das crianças pensando conseguir detê-las no caminho da ruína e da perdição. “Porque, a fascinação das frivolidades obscurece o bem e a inconstância da paixão transtorna o espírito inocente” (Sab. 4, 12).

Como sacerdote de Nosso Senhor Jesus Cristo, assisto com tristeza pais tomarem a defesa de filhos quando eles cometem infrações e são repreendidos. Além de não corrigirem os filhos, ainda se aborrecem quando um professor os admoesta, chegando não raras vezes a romper com a escola onde estudam os filhos na defesa de uma mera travessura infantil.

Outros abdicam à responsabilidade da educação deixando os filhos longamente diante da televisão ou da internet, para mais tarde, ao se deparar com os desvios dos filhos, se perguntarem o que aconteceu. Talvez seja demasiado tarde! Dentro do espírito cristão, sempre haverá uma forma equilibrada e sensata de educar os filhos.