quinta-feira, 15 de junho de 2017

Antes que seja demasiadamente tarde

Pe. David Francisquini

No dia 13 de maio último, comemoramos o centenário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos. O leitor poderá indagar se diante de tão marcante acontecimento da História da Igreja – certamente a mais importante das aparições da Virgem Maria ao mundo – os homens atenderam ou não aos pedidos da celeste mensageira.
Para responder a essa premente pergunta, importa recordar que a Mãe de Deus veio pedir aos homens oração, penitência, mortificação e mudança de vida, isto é, renúncia à impiedade e à corrupção dos costumes. E também que cressem e professassem a doutrina e a Lei de Deus consubstanciada nos Dez Mandamentos.
A Rainha do Céu e da Terra pediu ainda que se rezasse diariamente o terço e se fizesse a comunhão reparadora dos cinco primeiros sábados (a qual consiste em se confessar com a intenção de reparar o Coração Imaculado de Maria, comungar e passar um quarto de hora meditando sobre os mistérios do Santo Rosário).
Por fim, de maneira imperiosa, pediu a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração, a ser feita pelas autoridades competentes, pois do contrário essa nação espalharia seus erros pelo mundo. Teria esse pedido – como os outros sugeridos pela Mãe de Deus – sido atendido pelos homens?
– Infelizmente não! Poucos foram os que rezaram, e menos ainda os que se penitenciaram, se converteram e mudaram de vida. O que não deixa de ser um reflexo do não atendimento do pedido de consagração da Rússia.

*   *   *
1917-2017. Cem anos da aparição de Nossa Senhora em Fátima, Portugal. E também cem anos do bolchevismo na Rússia, o qual foi, e continua sendo, um flagelo para o mundo, que ele descristianiza através da Revolução gnóstica e igualitária. A crise sem precedentes que assola a Venezuela e ameaça o Brasil não é alheia aos erros espalhados pela Rússia.
Como Mãe de misericórdia, a Rainha dos Céus aparece aos pastorinhos, apresentando os meios para a conversão e mudança de vida. Onde está a conversão? Onde está a penitência? Cumpre lembrar que as aparições de Fátima aconteceram num momento importante do processo revolucionário, e mesmo se os homens não atendessem aos pedidos de Nossa Senhora, como mãe bondosa Ela prometeu: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.
Plinio Corrêa de Oliveira comenta que ao abandonarem os homens a velha tradição medieval, eles passaram a ter como ideal de vida não mais a Igreja e seus mandamentos, mas “o Humanismo e a Renascença, que procuraram relegar a Igreja, o sobrenatural e os valores morais da religião a um segundo plano”.
No campo social – continua o autor de Revolução e Contra-Revolução – “a introdução do ideal de desestabilizar a sociedade, levando ao caos, por meio da luta de classe e da violência e a ter hábitos tribais, estruturando-a numa ‘síntese ilusória’ entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade".
E conclui dizendo que, "segundo tal coletivismo, os vários ‘eus’ ou as pessoas individuais, com sua inteligência, sua vontade e sua sensibilidade, e consequentemente com os seus modos de ser característicos e conflitantes, se fundem, se dissolvem na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns".
Propriamente, é a negação da tradição e de todos os valores morais, religiosos, éticos e culturais, com vistas à implantação da anarquia na sociedade.
Daí a importância de Fátima e de sua mensagem para esmagar esse multissecular processo demolidor chamado Revolução, nascido no fim da Idade Média de uma crise de fé e moral sem precedentes na História. Nossa Senhora veio propor os remédios para liquidá-lo.

Remédios bondosamente oferecidos, mas dos quais os homens vêm se recusando a fazer uso. O que faz entrever um fim análogo ao daqueles doentes que se negam a tomar os remédios que seus médicos lhes prescrevem...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Por que Jesus Cristo ressuscitou?


Em alguma medida, muitos dos conhecimentos que nos são transmitidos pela natureza podem explicar o mistério da ressurreição da carne. Por exemplo, o nascer e o pôr do sol; o pintainho que sai do ovo; a crisálida — uma imagem do homem no túmulo — onde a borboleta atinge os seus dias antes de se lançar aos ares, reflete o homem ressuscitado. Tais símbolos foram criados por Deus para que o homem os contemple e admita uma verdade transcendente que é a ressurreição final.

Com efeito, ao ressuscitar, Cristo nos deu prova insofismável de sua divindade, confirmando-nos na fé, fortalecendo-nos na esperança, conduzindo-nos a uma vida mais perfeita, como afirma o Apóstolo São Paulo quando nos convida a renunciar ao velho fermento, que é o “fermento da malícia e da corrupção”. Se já ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto e afeiçoai-vos às coisas do Céu, não mais às da Terra.

A Ressurreição de Cristo (1441), afresco de
Fra Angélico no Convento de São Marcos (Florença)
O corpo de Cristo ressuscitado foi o mesmo que pendeu na cruz, e retirado do madeiro foi depositado no sepulcro pelo seus discípulos. No momento mesmo em que Jesus Cristo ressurgiu dos mortos, seu corpo ressurreto possuía os dons gloriosos da impassibilidade, da sutileza, da agilidade e da claridade, reflexos do transbordamento da glória da alma em liberdade, em que o corpo participa de todas essas qualidades.

Por que Cristo ressuscitou gloriosamente? Porque a sua ressurreição foi exemplar e a causa da nossa. Os santos, ao ressurgirem, terão seus corpos glorificados, como diz o Apóstolo, pois semearam na tristeza e ressuscitarão em glória. Se Cristo Nosso Senhor, submetido a todas aquelas humilhações da paixão e morte, mereceu glória incomparável, foi para brilhar aos olhos de todos aqueles que um dia ressuscitarão na mesma glória.

Sabemos pela teologia que a alma de Cristo — desde o primeiro instante de sua concepção — vivia em perfeita contemplação da divindade, vendo Deus face a face. Para que Cristo pudesse redimir o gênero humano, foi necessária como que uma interrupção desta visão, a fim de evitar que as alegrias decorrentes dela em sua alma não inundassem o seu próprio corpo mortal. Foram como que suspensos os benefícios da contemplação beatífica.

A Transfiguração de Cristo (1440), afresco de Fra Angélico no
 Convento de São Marcos (Florença).
Exceção houve na transfiguração ocorrida no monte Tabor, quando os Apóstolos puderam contemplar a divindade de Jesus Cristo: “Não conteis a ninguém o que vistes e ouvistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos”. O corpo de Nosso Senhor foi tomado de um esplendor que superou a luz do sol, pois o Filho de Deus, que havia assumido a humanidade enquanto Deus, não reteve nem impediu que sua divindade se refletisse em seu corpo.
Quando apareceu aos Apóstolos — afirma Santo Tomás de Aquino —, Ele agia à maneira de recipiente, emanando a auréola de seu corpo glorificado que se funde à cor natural do corpo humano, assim como o vidro colorido se torna resplandecente pela iluminação do sol, independendo de sua cor. Cristo quis aparecer aos seus discípulos com a sua cor natural, para que assim eles pudessem contemplá-Lo e serem confirmados na fé.

Assim como apareceu aos seus discípulos — diz a Sagrada Escritura —, Cristo desvaneceu-se aos olhos deles pelo dom da agilidade. Por esse dom Ele podia desaparecer, estando ainda presente ou separando-se e pondo-se em outro lugar com a rapidez do pensamento, assim como pela sutileza, que Lhe era intrínseca, pôde transpor a pedra do túmulo que O continha e a porta fechada do Cenáculo, onde se encontravam os discípulos reunidos.

Ora, todos esses acontecimentos depois da ressurreição de Cristo se deram — a exemplo das cicatrizes conservadas em suas divinas mãos e pés, bem como a do lado trespassado pela lança de Longino — para demonstrar que aquele era o mesmo Cristo que havia sido crucificado, morto, sepultado e que ali se encontrava vivo, glorioso e impassível, vencedor da morte e do pecado para a glória do Pai e do seu santo Nome.

Tornou esplendorosa a justiça de Deus por meio da obediência, que O levou a ser desprezado e objeto de opróbio pelo populacho — “Humilhou-se a si mesmo, fez-se obediente até à morte e morte de Cruz, pelo que Deus também O exaltou, e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes” (Fil. II 7-9).

Essa foi a gloriosa trajetória que Jesus Cristo quis percorrer para nos fazer ressurgir do pecado mortal — que é a morte da alma — para a vida da graça, por meio da penitência, sem protelação, prontamente, como Cristo ressurgiu ao terceiro dia. E com o firme e perseverante propósito de não mais pecar, com resolução de evitar tudo o que antes fora ocasião de morte e de pecado, vida nova e de justiça em ordem à vida eterna. Eis uma lição da ressurreição gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Modas e os seus diktats

Padre David Francisquini

Não deixa de ser curiosa a maneira como os meios de comunicação costumam tratar das modas. Via de regra, eles se utilizam de uma linguagem evasiva como “Você já conhece as tendências da moda?”; “Fique de olho nos desfiles e descubra qual será a tendência...”; “Tendências que vão bombar no próximo verão...”.
O dicionário define tendência como uma disposição natural que leva algo ou alguém a se mover em direção a outra coisa ou a outra pessoa. Afirma também que os estilistas se baseiam em tendências universais.
Como nos encontramos num processo revolucionário várias vezes secular, todo ele feito por etapas, que tem por origem última em determinadas tendências desordenadas, lutando por realizar-se, elas começam sempre por modificar as mentalidades, as expressões artísticas e os costumes.
Com efeito, tais tendências têm muito de natural, mas considerando o processo revolucionário como o descreve Plinio Corrêa de Oliveira na sua obra-prima Revolução e Contra-Revolução, elas podem ser facilmente induzidas, o que facilita a compreensão de onde elas vêm e para onde elas vão.
Afinal, quem dita tendências na moda? – As grandes grifes mundiais, ou seja, agentes revolucionários, com desígnios escusos, na pretensão de abalar convicções, costumes, modos de ser e de agir das pessoas que ainda prezam e vivem valores herdados da civilização cristã.  
Ainda que tais grifes quisessem apenas vender, mas o que é a publicidade moderna senão a exploração de um ou mais vícios capitais? Com tal objetivo, tais agentes avaliam o panorama das psicologias das almas, com suas tendências, contando sempre com o mecanismo dos vícios e das tendências desordenadas.
Com que objetivo? – Destronar Nosso Senhor e colocar Satanás em um trono; liquidar a boa ordem das coisas e preparar os gostos, os pendores, os humores para os vícios. Modificar o estado temperamental, para que as pessoas vão se habituando à cacofonia, ao mau gosto, a tudo quanto é desordenado; estimular os hábitos imoderados e tendenciosos na maneira de se vestir, cores extravagantes sem harmonia e beleza, a minimização das vestes rumo à nudez.
Trata-se de uma ofensiva que, muitas vezes, tenta transtornar a ordem espiritual, com desregramentos morais, para assim golpear a boa ordem no âmbito temporal. Ofensiva satânica visando atacar a glória de Deus, tentando destruir a ordem espiritual e temporal, sugerindo concessões ao mal.
Tudo isso é feito por meio de devotados agentes que atuam de maneira inversa à dos evangelizadores que edificaram a civilização cristã. É deprimente notar o descaso com que as modas indecentes vão penetrando e se avolumando rumo ao nudismo, em detrimento dos modos de se vestir do passado. 
Mais triste ainda é o desdém, a indiferença e a omissão cada vez maiores por parte daqueles que deveriam ser o sal da terra e a luz do mundo, que permitem pessoas indecorosas nos recintos sagrados e até mesmo aproximarem-se da mesa eucarística.
Tudo isso leva crer na existência de uma ação junto àqueles que deveriam ser o baluarte da fé e da ortodoxia a fim de os levar a um pacto com o mundo, permitindo a contaminação dos ambientes católicos com os erros modernos ao cerrar os olhos para o uso de roupas masculinas pelas mulheres, dizendo que não se deve incomodar com essas ninharias.
Porventura, não sabem eles, com base em Santo Ambrósio e São Tomás de Aquino, ser o próprio Deus quem vestiu as aves e os bichos, com penas e pelos? E que Ele mesmo diferenciou o sexo de cada um?  
Assim Deus pôs no homem um princípio inteligente e volitivo, estabeleceu a diferenciação entre homem e mulher e que cada um deve regrar os seus atos de acordo com essa diferença, vestindo-se convenientemente, conforme a natureza de cada sexo.
Diz Santo Ambrósio: "Não se conserva a castidade quando não se guarda a distinção dos sexos". Isto faz parte de um princípio, estabelecido pelo próprio Deus, que tem como base a própria natureza racional do homem e da mulher.
Daí, lermos nas Escrituras que é abominável o homem que se veste como mulher e a mulher como homem, porque é a transgressão da própria natureza.
Faz parte da boa ordenação das coisas que o homem ao atingir um grau de civilização e de progresso se dignifique em toda a sua plenitude na maneira de se vestir, nos hábitos comportamentais condizentes ao seu fim nesta terra, qual seja conhecer, amar e servir a Deus, preparando-se para a vida eterna.
O que as ditas modas introduzem é uma depravação do próprio homem em sua dignidade de ser racional e ontológico. Prepara-o para todas as aberrações conduzindo-o ao caos, visto que semelhante conduta reflete a negação do próprio Deus.
Quando o homem pecou no Paraíso terrestre, escondeu-se confuso e envergonhado de sua nudez. Deus Pai, com a sua bondade, teceu-lhe uma veste e o cobriu, como quem cobre as aves de penas, e os animais de pelos, e os campos de vegetação.
No ambiente de permissivismo moral, a distinção de um sexo do outro, vai se atenuando de tal forma que hoje se chega a fazer justificação da ideologia de gênero, escancarando a negação da evidência que a natureza se encarregou de estabelecer entre homem e mulher.
Diz São Tomás de Aquino: "Que o vestuário exterior deve corresponder à condição da pessoa, de conformidade do uso comum. Por isso, em si mesmo é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris ou inversamente. Sobretudo por que pode ser causa de lascívia. O que a lei antiga expressamente proibia, porque os gentios usavam desses travestimentos pela superstição da idolatria.”
O igualitarismo constitui uma das características dominantes de hoje. Em nome da igualdade vai se impondo ao homem o sentimento anticristão. A igualdade entre os sexos representa uma das inúmeras manifestações de igualitarismo que leva a negação de Deus e da religião, afastando as pessoas de sua própria identidade. 
Uma instrução da Santa Sé, de 12-01-1930, afirma: "Muitas vezes, dada a oportunidade, o Sumo Pontífice reprovou e condenou acerbamente a maneira insolente de se vestir que se vai introduzindo entre as senhoras e jovens católicas.
Esse modo de vestir, não só ofende o decoro feminino e a modéstia, mas, o que é mais grave, vem em grave prejuízo dessas mesmas mulheres; e, o que é pior, leva miseravelmente tantos outros à condenação eterna.
Nada mais lógico e forçoso que os bispos, assim como convém aos ministros de Cristo, como se fossem uma só voz, oponham toda barreira a essa audácia e libertinagem da moda, suportando com serenidade e coragem as zombarias e insultos que receberam de espíritos malévolos por essa tomada de posição.
Os párocos e pregadores, nas ocasiões que se oferecerem, conforme recomenda São Paulo, "insistam, expliquem, increpem, exortem" para que as mulheres usem vestes que irradiem o pudor e que sejam o ornamento e defesa da virtude, e admoestem aos pais para que não deixem suas filhas usar vestes indecorosas.

Os pais conscientes da obrigação gravíssima que tem de cuidar, em primeiro lugar, da educação religiosa e moral dos filhos, fomentem, em seu espírito, por todos os meios, quer pela palavra, quer pelo exemplo, o amor da virtude da modéstia e da castidade".   

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Retorno à casa paterna

Pe. David Francisquini


Enquanto o ano de 2017 não começa de verdade, o Brasil assiste a uma onda de criminalidade que lembra cenas de filmes de terror, tamanha a crueldade e a selvageria cometidas nas ruas, nos presídios, e até mesmo no recinto familiar.
Neste último, onde outrora reinava a tranquilidade, a segurança e o bem-estar, com o desfazimento da família vêm se produzindo desequilíbrios alarmantes, cujo exemplo recente mais chocante foi a chacina ocorrida no final de 2016 em Campinas, que ceifou a vida de várias pessoas de uma família, inclusive da esposa e do filho do autor, que depois pôs fim à sua.
Se medidas drásticas não forem tomadas, e, sobretudo, se Deus não intervier contra esta brutal investida, impossível não vislumbrar o caos social.
Entre tais medidas estaria, de um lado, fazer cessar por vias legais todos os programas televisivos atentatórios à família e cujo desfecho final próximo ou remoto é o crime em suas diversas modalidades, e de outro, impedir a legalização das drogas, defendida até por um ex-presidente octogenário que nega a realidade em aras ao marxismo que professa: a Holanda, que as legalizou, está voltando atrás, tais foram os estragos irreparáveis causados pela legalização.
Poderá se perguntar, no tocante à mídia – televisiva, falada ou escrita – a liberdade de imprensa. Esta, entretanto, para ser verdadeira e legítima, não pode jamais prejudicar o bem comum, cuja defesa incumbe ao Estado. A propósito da liberdade ilimitada, exercida por uns poucos em detrimento do conjunto do País, convém repetir o que a propósito da Revolução Francesa exclamou Madame Roland: “Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.
             Foi devido a essa liberdade irrestrita e mal compreendida, cujo porta-voz incessante é a política dos Direitos Humanos, que gangues de presidiários do crime organizado vêm disseminando o terror em disputa pelo poder dentro e fora das prisões; que policiais fazem greves, enquanto outros são agredidos e mortos nas ruas; que se tornou possível a grande desordem ocorrida em Vitória–ES, com pilhagens, roubos, execuções e conflitos sangrentos que metem pânico na população ordeira, pacífica e desarmada.
Com efeito, como estamos longe da paz verdadeira, definida por Santo Agostinho como a tranquilidade da ordem! Entendida como a paz de Cristo no Reino de Cristo, essa ordem não está para ser inventada, porquanto ela existiu e está registrada na História, quando a sociedade destilou e colocou em prática os princípios do Evangelho formando a civilização cristã no período medieval.
Finda a Cristandade, num declinar ininterrupto, esta mesma civilização foi sendo carcomida pelos seus inimigos. Começando pelo tão propalado Renascimento, que substituiu a sociedade teocêntrica pela antropocêntrica, passando pela Revolução Protestante, quando foram lançados o espírito de dúvida e o liberalismo religioso, desfechou mais tarde no assim chamado Século das Luzes, ao mobilizar a razão para combater a verdadeira fé, depois na Revolução Francesa com a sua doutrina igualitária e laicista, até chegar ao comunismo.
Como esse processo não deve ser visto como uma sequência fortuita de causas e efeitos, que se foram sucedendo de modo inesperado, pois já em seu início continha as energias necessárias para reduzir a atos todas as suas potencialidades, como afirma Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução e Contra-Revolução, ele continua fazendo o seu caminho rumo ao abismo.
Com efeito, uma vez desencadeadas as más paixões, o homem passa a ter sede de absurdo e de pecado, e assim, de abismo em abismo, ele segue inexoravelmente a rota da bola de neve ou da pedra que rola do cimo de uma montanha até o vale mais profundo, incapaz de se lembrar da casa paterna onde imperavam a harmonia e a paz. Afinal, são poucos os que hoje se lembram da civilização cristã.
Por que não procurar reviver aquilo que fazia o homem feliz neste vale de lágrimas? Bons tempos foram aqueles proclamados pelo Papa Leão XIII: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava as nações”. Havia harmonia entre as classes sociais, pois todos obedeciam à Lei de Deus, conditio sine qua non para reinar a verdadeira paz que é a tranquilidade da ordem.
Fala-se tanto de paz... Aí está a ONU, supostamente a guardiã da paz mundial, mas do que valem seus esforços? De nada. Absolutamente nada. Há, a respeito dela, até um conceito com ares de verossimilhança, que se enuncia mais ou menos assim: “ONU = organismo com o qual ou sem o qual o mundo continua tal e qual”. Afinal, os seus meios são alheios, quando não diametralmente opostos à Lei de Deus e à sua divina sabedoria.
Portanto, este grande desejo de paz vem-se demonstrando inalcançável como a linha do horizonte, sempre equidistante e nunca atingida pela embarcação em alto mar. Bem considerada a questão, isto não constitui surpresa, visto que a busca de solução tem sido feita por meios tortuosos, quando não cúmplices. As discussões costumam girar em torno das desigualdades, da pobreza, do desemprego, da educação, da saúde.
Mas faz-se, propositadamente, tábula rasa a respeito daquilo que importa realmente, as questões morais, como se estas não embasassem fortemente os conceitos e a licitude estabelecida nas leis. Não esqueçamos que a Santa Igreja é a guardiã da moral, consubstanciada nos dez mandamentos da Lei de Deus.
*   *   *
Podemos facilmente constatar que numa família de prole numerosa, mas carente de recursos, via de regra os filhos atingem a maioridade vencendo as dificuldades da vida com honra e dignidade, para a alegria dos pais e edificação da sociedade em que vivem e servem, constituindo exceção a ocorrência de um deles se tornar infrator ou criminoso contumaz.
Ora, a imensa maioria dos brasileiros mostra-se estarrecida com os feitos monstruosos perpetrados pelas chacinas ocorridas nos presídios e condolente em relação às crianças trucidadas no ventre materno nas clínicas de aborto e aos idosos que possam vir a ser objeto da eutanásia. Pois nesses casos há sempre a violação da lei natural.
Cabe ainda salientar que, à força de ir sabendo pelo noticiário de tantos e tais acontecimentos, estes vão se tornando banais, o que mais facilmente induz as pessoas à barbárie. O que se depreende da narrativa do noticiário sobre as tragédias é que a opinião pública acaba por se habituar às notícias, não reagindo nem tomando posição diante dos fatos baseada em princípios. Com tal estado de espírito, o martelar das notícias torna as pessoas insensíveis.
A noção de bem e de mal, conatural às pessoas, vai se evanescendo. Encontramo-nos à mercê de um mundo dominado pela insensibilidade, pelo egoísmo, pela indiferença, pela ausência crescente de Deus nos corações. O verdadeiro conceito de família como instituição divina vai assim desaparecendo de nossas mentalidades e considerações e, com ele o bem-estar, o equilíbrio e a harmonia.
Resta-nos buscar na oração as forças necessárias para enfrentar esta luta com certeza e esperança de melhores dias. A doutrina de Jesus Cristo é uma luz que nos guia até a vitória profetizada em Fátima, há um século, pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria. A Mãe de Deus, embaixadora celeste, disse em 1917 que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo. Pediu oração, penitência, mudança de vida e a devoção dos cinco primeiros sábados. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Por que tanta vontade de trucidar criancinhas?
                                                                       Padre David Francisquini
Às vésperas do Natal, a partir do caso específico de suspensão da prisão preventiva de pessoas que trabalhavam numa clínica clandestina de aborto no Rio de Janeiro, o Supremo Tribunal Federal acabou por liberar a sua prática até os três meses de gestação, fato que vem provocando acirrada polêmica no país.
            Abortar constitui crime não apenas para um católico, mas para todos os homens, em todos os tempos e lugares, como decorrência da lei natural, pois ninguém tem o direito de praticá-lo simplesmente pelo fato de formar opinião individual de que o mesmo não importa em crime.
Com efeito, os princípios da lei natural inscritos nos corações de todos os homens são acessíveis à razão e se impõem a todos, independentemente de suas crenças – ou descrenças – religiosas, mesmo que eles ocupem situação de preeminência na vida social, política ou mesmo no Judiciário.
Vimos verificando que o Estado brasileiro, apesar de se dizer laico ou neutro, acaba por impor sua ideologia pela introdução de leis ao gosto de minorias que postulam uma vida social e pública desvinculada de qualquer fator religioso, contrariando, aliás, o direito natural e divino.
Trata-se de um confessionalismo ideológico agnóstico e laico, de um estranho estado de direito democrático e pluralista, no qual, na prática, apenas os ditos incrédulos modelam e impõem as leis a seu talante. Nesse sentido, foi significativa a decisão da nossa Suprema Corte sobre o aborto, na calada da noite.
No exato momento em que, desdenhando as cinzas do sanguinário ditador Fidel Castro, cultuadas em Cuba por dois ex-presidentes petistas, o Brasil enlutado pranteava a tragédia ocorrida com o time da Chapecoense, algo de muito mais trágico acontecia entre as quatro paredes do STF: a descriminalização do aborto até o terceiro mês de gestação, condenando, ipso facto, milhões de brasileiros indefesos à morte atroz.
 Quando os egrégios ministros do STF deveriam estar voltados contra a corrupção que se alastrou em todos os campos da sociedade brasileira, sobretudo no meio político, sua preocupação era paradoxalmente de autorizar o crime contra os inocentes.
Apenas para recordar, o caso ocorrido na clínica clandestina carioca foi parar no STF, onde o Ministro Marco Aurélio Melo votou pela liberdade dos funcionários por entender que não cabia prisão preventiva. Contudo, o Ministro Luís Roberto Barroso apresentou um voto ampliado, descriminalizando, na prática, o aborto.
          Recordemos ainda que, antes de se tornar Ministro do STF, o Dr. Luís Roberto Barroso, quando ainda advogava, impetrou ação que passou a vigorar contra os anencefálicos, pondo assim a guilhotina para funcionar contra as crianças portadoras de deficiências, alegando tratar-se de duro fardo para as mães de filhos especiais.
         É a primeira vez na História do Brasil que o aborto amplo e irrestrito passa a vigorar juntamente com o aborto decorrente de estupros. Elevado à condição de ministro do STF, o Dr. Barroso, do alto de seu “notável saber jurídico e reputação ilibada”, passou a trabalhar à revelia das disposições constitucionais, que garantem a inviolabilidade do direito à vida, ao favorecer a causa do aborto.
Os seus argumentos são lastreados nos jargões mais surrados dos defensores do aborto um pouco por todo o mundo, ou seja, que sua criminalização é incompatível com os direitos fundamentais da mulher, entre eles os sexuais e reprodutivos, bem como de sua autonomia e integridade física e psíquica, além dos da igualdade.
Ao alegar os direitos sexuais e reprodutivos da mulher, com frequência se menciona, como uma palavra de ordem, seu suposto direito ao aborto. Isso tem como base o pressuposto hedonista, segundo o qual a vida sexual seria destinada ao prazer das partes, e não relacionada com a vida em família e a procriação da prole.
O Sr. Ministro, ao alegar ainda que só a mulher engravida, acaba por minimizar o direito fundamental de todo ser humano, direito inalienável decorrente de sua própria constituição enquanto ser racional e volitivo, ontológico e com direito à vida. Isso faz parte da própria sanidade mental e moral do indivíduo.
Do ato entre um homem e uma mulher é gerado um novo ser, que deve ser respeitado e garantido pela própria Constituição e pelo Supremo Tribunal, e não simplesmente eliminado. Todos os tratadistas de filosofia aristotélico-tomista defendem o direito à vida como direito fundamental do próprio ser racional.
Por exemplo, como se explica tanto alarde contra quem ‘assassina’ uma capivara ou uma sucuri, crime qualificado como inafiançável, enquanto libera de toda responsabilidade quem pratica um aborto em nome do ‘direito’ da mulher de decidir sobre a manutenção de sua gravidez, porque somente ela pode conceber?
Por que tanta vontade de trucidar criancinhas?  Será que, data venia, o Sr. Ministro está a serviço de minorias ideologizadas, que recorrem à Justiça para mudar leis e costumes nos moldes da ativista colombiana Mónica Roia, visando um impacto sentimental para mover a opinião pública?
Parece ter sido este o ponto de convergência entre os ministros, que a Suprema Corte acolheu. Nada disso é novo, pois esta cantilena foi denunciada há muito no meu livro Catecismo contra o aborto (Capítulo VII – Aborto, Saúde Pública e Estado Leigo – p. 37, Artpress, 2009).
Que os parlamentares abram os olhos para o delineamento de um ativismo ditatorial do Judiciário em prol do aborto, se não quiserem perder a prerrogativa de legisladores. Na realidade, estamos assistindo à maior debilitação do vínculo familiar, com a consequente destruição da família conforme Jesus Cristo a instituiu.
Cumpre, portanto, fazer valer o direito da Santa Igreja de ser ouvida. Direito que não está vinculado a maioria alguma, mas à suma autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que também foi Mestre, independentemente de as multidões O aclamarem.