segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Colheremos o que semearmos

Pe. David Francisquini

Para quem percorre o meio rural brasileiro, sobretudo em minha região norte-fluminense, chamam a atenção as linhas férreas desativadas rasgando as paisagens até se perderem de vista.  Sou levado a pensar a este propósito que um marco nos avanços que vinham dos tempos do Império foi abatido, pois os interessados eram de um lado os proprietários rurais, afanosos em fazer escoar a produção de suas terras, e de outro lado o Estado, que proporcionava assim um meio de transporte mais adequado aos tempos e às circunstâncias.
Barato e eficiente para todos os que viviam numa sociedade heril, familiar e plena de bem-estar, o trem, ao se aproximar de uma estação, despertava um ar de alegria, não apenas nos interessados em despachar e receber seus passageiros e mercadorias, mas em todos da localidade, pois era sempre portador de jornais, correspondências, enfim, de notícias novas.
Mas os tempos hoje são bem outros. Os trens foram substituídos por ônibus, caminhões, carretas, aviões... todos movidos a petróleo, em grande parte importado, meios caríssimos que concorrem não pouco para o custo Brasil. Quanto às notícias, elas nos chegam em velocidades siderais, como de costume as ruins em primeiro lugar, através da Internet, da TV, dos celulares e das redes sociais...
Como não podia deixar de ser, os moradores do campo, sobretudo os mais velhos, conservam ainda hábitos de outros tempos, como por exemplo a manifestação de júbilo ao receber alguém em sua casa, quando falam do tempo, das plantações e das criações como se fossem uma extensão de si mesmos.
Alguns fazem considerações sobre o lado misterioso de sua lida com a terra, onde pululam enormes variedades da flora e da fauna. Para essas pessoas, quem deu à terra sua fertilidade foi o próprio Deus, Ser supremo e infinito que ao criar todas as coisas quis nos maravilhar com a variedade da magnificência das criaturas.
Para o homem do campo, as elaborações mentais – mesmo quando não inteiramente explicitadas – levam-no a considerações ainda mais altas, até tocarem em Deus, único Ser capaz de prover os campos com a dádiva de tantas riquezas e variedades próprias a alimentar o corpo e a alma dos homens.
Por efeito do pecado original, na mesma terra onde vicejam as boas sementes, surge também a erva daninha, que com seus espinhos e frutos amargos invade às braçadas a terra. E como é difícil combatê-la! Ela é luz reflexa dos vícios que levam as pessoas a não viverem moralmente bem, privando-as da amizade e da graça de Deus.
Diz o Evangelho: “O Reino de Deus é como um homem que lança semente à terra; ele dorme e se levanta noite e dia, e a semente brota e cresce sem ele saber como. Porque a terra por si mesma produz, primeiramente, colmo, depois a espiga, e por último o trigo grado na espiga. Quando o fruto está maduro, põe-se logo a foice, porque é chegado o tempo da ceifa.” (Mc 4, 26 a 29).

Assim são os homens neste mundo, nesta terra de exílio. São como sementes boas ou más: as boas são levadas aos celeiros, as ruins, atiradas ao fogo. O fim de cada pessoa será de acordo com o que ela semeou. Se semeou a boa semente, receberá o prêmio consolador: “Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo”. Se semeou a semente ruim, receberá a sentença ou "afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o diabo e para os seus anjos”!