sábado, 5 de novembro de 2011

A semente em terra fértil (II)

                                                                              *Pe. David Francisquini

Em recente artigo – A semente em terra fértil – tive ocasião de salientar a têmpera do homem do campo, formada primordialmente pela contemplação e reflexão. Hoje volto ao tema entrevendo uma montanha que se eleva no seu panorama. Ela estará sempre como uma bússola a nortear sua imaginação cheia de princípios, ainda que incipientes, sobre as virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade. 
A partir daquele mirante, o camponês poderá analisar o que acontece ao seu redor como uma chuva mansa que cai sobre a relva e ressoa harmonias às quais ele poderá associar as dádivas e as bênçãos de Deus sobre ele, sua família e seu campo. Enquanto a vegetação se beneficia da água, ele agradecerá a Deus, o Pai de todos, que faz chover sobre os justos e os injustos.
Enquanto os pássaros em revoada se põem a cantar, o camponês pensará no céu, nos anjos e nos santos, que numa homenagem perene louvam a Deus. Ao ver um passarinho apanhar um inseto e com ele alimentar seus filhotes, o camponês se lembrará de Deus que o ajuda sempre a alimentar seus filhos e educá-los para a vida.
De quando em quando, ele ouve um mugido do gado pastando, e se lembrará de Deus, bendizendo-O no fundo de seu coração por não se ter esquecido dele nas labutas diárias. Enquanto os cães ladram durante a noite, ele é levado a pensar nas sentinelas que Deus lhe deu como vigia para si, sua família e seu patrimônio.
 Na iminência ou mesmo durante uma tempestade com relâmpagos e trovões, ele poderá se recordar da justiça divina que premia os bons e castiga os maus. O temor de Deus, início da sabedoria, o levará a fazer propósitos firmes de abandonar o erro e o pecado e não transgredir mais os mandamentos divinos.
Não nos esqueçamos de que o homem do campo também padece das conseqüências do pecado original; o que o diferencia dos outros em nossos dias é o fato de ele se encontrar no habitat que lhe é próprio. Com efeito, ao contemplar a natureza, ele se lembrará da vida perfeita e incriada, ou seja, do próprio Deus que é o Pai da vida, d’Aquele que distribuiu seus bens sem medidas.
Não é sem motivo que o camponês reza o Pai Nosso, oração perfeita composta pelo próprio Homem-Deus. Não é sem motivo que ele não deixa de rezar a Ave-Maria à Mãe das mães. Enquanto reza ele reflete, e seu pensamento o leva a voar para uma região longínqua, ao dia de sua morte terrena e de seu encontro com Deus.
Se o seu caráter se tornar indomável, ninguém conseguirá dobrá-lo, devido à sua fé e ao seu amor a Deus. Enquanto ele estiver na terra, não há outro sentido senão o de passar seus dias amando e glorificando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O que continuará na terra será o seu exemplo, o seu valor de luta e de intrepidez.
Tais considerações nos fazem reportar à Escritura Sagrada, com Deus sujeitando o homem a tirar da terra o seu sustento com trabalhos árduos todos os dias de sua vida. Se assim o fez, foi de Pai para filho, pois entre espinhos e abrolhos seu herdeiro formará o caráter ao comer o pão com o suor de seu rosto, até que volte à terra da qual ele foi formado.