domingo, 24 de janeiro de 2010

Stat Crux


Pe. David Francisquini

Para falar da cruz não vou remontar à árvore da graça no Paraíso, nem sua passagem através da ponte do rei Salomão para Jerusalém até a escolha desse lenho para a crucifixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Além de a tarefa ser árdua, seria muito longa.
Na linguagem moderna e quase irreverente do publicitário Alex Periscinotto, em palestra proferida aos bispos do Brasil (1977), a cruz se tornou o primeiro e o mais feliz dos ‘logotipos’. Sempre presente no alto das torres, a cruz permite identificar que ali existe uma igreja católica.
Como fora escondida depois do mistério da morte de Cristo, a História registra sua descoberta em Jerusalém no ano de 326, por Santa Helena (na pintura, à direita), mãe de Constantino (à esquerda). A partir de então, a devoção à cruz difundiu-se tão rapidamente, e antes de se encerrar o século, surgiu o hino Flecte genu lignumque Crucis venerabile adora (genuflexo, adora o venerável lenho da Cruz).
De alguns lustros para cá, vem surgindo aqui, lá e acolá um debate sobre a presença de símbolos religiosos, sobretudo da cruz, em lugares ou repartições públicas tais como escolas, hospitais, câmaras legislativas, prefeituras e mesmo no Judiciário.
Por exemplo, recente acórdão judicial obrigou a construção de uma sala-mesquita para alunos muçulmanos num bairro de Berlim, pois a Constituição alemã proíbe toda manifestação religiosa nas escolas. Em 1995, uma Corte anulara a legislação bávara que permitia fixar crucifixos nas escolas públicas.


Na Itália, a questão vem se repetindo. Como os Estados não se envolviam diretamente na proscrição e na retirada desses símbolos em tais lugares, a Corte Européia de Direitos Humanos de Estrasburgo decidiu contra o uso de crucifixos em salas de aula na Itália.


Quando a autoridade judicial determina a retirada dessas insígnias, costuma causar descontentamento geral, pois apesar de o Estado ser laico e defender a liberdade religiosa, a maioria dos cidadãos que compõem tais Estados, como na Itália, são católicos.
É muito estranho que um costume milenar arraigado na alma dessas nações, seja bombardeado por minoria perturbadora e intolerante ao querer impor suas idéias. Por toda a parte, como por exemplo em Roma, sede do cristianismo. Afinal, por que tanto ódio à cruz?
Nosso Senhor Jesus Cristo morreu pregado numa cruz, no alto do Monte Calvário, em Jerusalém. Nessa ocasião ocorreu a Redenção do gênero humano, ou seja, Ele imolou-se pela humanidade e abriu as portas do Céu, até então fechadas pelo pecado de nossos primeiros pais.
A partir de Jerusalém, os Apóstolos pregaram o Evangelho. E São Paulo afirmava alto e bom som: “Eu só sei pregar a Cristo e Cristo Jesus crucificado”. Os povos converteram-se ao cristianismo, da Europa e posteriormente das Américas, e o catolicismo hoje conta com mais de um bilhão de fíéis.
A Religião católica tornou-se oficial em muitas nações. Reis e imperadores carregaram a Cruz no alto de suas coroas, estamparam-na sobre seus estandartes e viveram séculos sob a influência benfazeja de nossa santa Religião. A cruz tornou-se o sinal do cristão, e indica os principais mistérios da nossa fé.



Pretendo dar continuidade ao já exposto num próximo artigo.

Stat Crux II 

Em artigo anterior, escrevemos sobre a cruz ao longo da História; a cruz como sinal do cristão; a cruz que aponta os mistérios da fé católica, apostólica, romana; a cruz perseguida, diante da qual — genuflexos — adoramos o instrumento da Redenção do gênero humano pelo Homem-Deus.
É pela compreensão do papel do sofrimento e do mistério da cruz e sua aceitação que os homens poderão ser salvos da crise tremenda que se abate sobre a sociedade hodierna. E sua rejeição, por aqueles que permanecerem fechados até o último momento ao seu convite amoroso, poderá lhes acarretar as penas eternas.
Para os servos de Deus, a cruz é arma invencível e barreira que resiste a todos os esforços do inferno. É muito conhecido na História o acontecimento no qual Constantino — em luta contra Maxêncio pelo título de imperador — às portas de Roma viu nos céus uma cruz [pintura abaixo] junto à inscrição In hoc signo vinces (Com esse sinal vencerás).
Tendo colocado a cruz e essa inscrição em seu estandarte, ele triunfou. O local ficou conhecido como Saxa Rubra, pela abundância de sangue derramado. Tornando-se imperador, Constantino aboliu o suplício da cruz, o mais infamante e o mais terrível, no qual padeciam os piores criminosos. E, a partir daquela data — 28 de outubro de 312 —, ninguém mais seria crucificado.
Depois de Nosso Senhor Jesus Cristo ter sido morto no madeiro da cruz, esse símbolo tornou-se o mais nobre, o mais elevado e o mais precioso da História. Como de uma árvore veio o pecado de nossos primeiros pais Adão e Eva, de outra árvore veio a salvação. Ela representa o verdadeiro escudo contra as potestades infernais.
Ao abolir tais símbolos — como propõe o novo Programa Nacional de Direitos Humanos —, o Estado leigo afirma não professar religião e postula a vida social desvinculada do fator religioso. Trata-se na realidade de confessionalismo ideológico e agnóstico, pois equivale a dizer: “Como você tem uma convicção, uma religião, não pode impô-la a mim. Mas eu Estado, todo-poderoso, agnóstico e ateu, posso impor a minha a você. Nós divergimos, mas quem tem razão sou eu, pois tenho a mente livre e não atada por dogmas religiosos!”
Na verdade, parece tratar-se mais de um bizarro Estado dito democrático e pluralista, no qual só os ateus e agnósticos têm o direito de falar e modelar leis e costumes segundo seus princípios. Seria essa a nova ditadura na qual os “dogmas” do laicismo seriam impostos a todos?
Se hoje nas escolas, nas repartições, nos prédios e nos lugares públicos a cruz de Cristo não pode aparecer, amanhã, em nome do mesmo princípio, os pais não poderão ensinar a Religião, pois violariam a opção livre de seus filhos. Até aonde chegará a ousadia do Estado moderno?
*sacerdote da igreja do Imaculado Coração de Maria, Cardoso Moreira - RJ
Deus e o “casamento” homossexual





Pe. Davi Francisquini

Deus fez “chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo [vindo] do céu; e destruiu estas cidades, e todo o país em roda, todos os habitantes das cidades, e todo a vegetação da terra”(Gen. 19, 24-26).

Entrou em pauta no Congresso um projeto para legalizar o dito “casamento” homossexual, pleiteado pela ex-deputada e atual Prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Ainda não está claro se vai ser aprovado ou rejeitado pela maioria de nossos deputados. No ínterim, convém estudar o que representaria sua aprovação aos olhos de Deus. Para isso, temos duas fontes: as Sagradas Escrituras e os comentários dos Padres da Igreja e dos Papas.

Na leitura desses textos, duas coisas saltam aos olhos: a clareza com a qual a homossexualidade é definida como uma aberração antinatural; e a energia com que sua prática é punida por Deus.

Já no Antigo Testamento afirma-se que “aquele que pecar com um homem, como se ele fosse uma mulher, ambos cometeram uma coisa execranda, sejam punidos de morte, o seu sangue caia sobre eles” ( Lev. 20,13 ).

Essa ameaça divina não ficou no ar. Todos sabemos como Deus fez “chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo [vindo] do céu; e destruiu estas cidades, e todo o país em roda, todos os habitantes das cidades, e toda a vegetação da terra” (Gen. 19, 24-26). No total, foram cinco as cidades punidas, as quais estão ainda submersas ao sul do Mar Morto, como se pôde constatar recentemente em trabalhos arqueológicos. Aliás, o Mar Morto leva esse nome por não haver nele sinal de vida, e porque, nas regiões circunvizinhas, o deserto testifica a maldição de Deus sobre as cidades criminosas que lá se encontravam.

A energia desse castigo divino ficou tão firmemente registrada na memória da humanidade, que ainda hoje a prática do homossexualismo é conhecida como “sodomia”, precisamente em lembrança do castigo bíblico a Sodoma.

Não apenas o Antigo Testamento condena o homossexualismo

Há, contudo, quem pense que no Novo Testamento o vigor dessa reprovação divina da prática homossexual foi temperado pela misericórdia da Lei da Graça trazida por Nosso Senhor Jesus Cristo. Engana-se rotundamente.


Leia-se o que diz o Apóstolo São Paulo, descrevendo os frutos da idolatria: “Porque as suas próprias mulheres mudaram o uso natural, em outro uso, que é contra a natureza. E do mesmo modo, também os homens, deixando o uso natural da mulher, arderam nos desejos mutuamente, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em si mesmos a paga que era devida ao seu desregramento. E, como não procuram conhecer a Deus, Deus abandonou-os a um sentimento depravado, para que fizessem o que não convém, cheios de toda iniqüidade, malícia e fornicação” (I Rom., 26 e ss.).

E a condenação do Apóstolo não se limita aos que praticam a sodomia, mas até às pessoas que a aprovam complacentes: “As quais, tendo conhecido a justiça de Deus, não compreenderam que os que fazem tais coisas são dignos de morte; e não somente quem as faz, mas também quem aprova aqueles que as fazem” (idem, 32).

E a morte com que ele ameaça esses pecadores não é nem sequer desta vida, mas é a morte eterna! Veja-se: “Não vos enganeis: nem mesmo os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, ... possuirão o reino de Deus” (I Cor. 6, 9-10). Ou seja, irão para o Inferno.


São Judas Tadeu - Escola quitenha, Igreja de São Domingos, Quito (Equador)

São Pedro e São Judas Tadeu condenam a sodomia

Hoje está na moda afirmar que São Paulo dizia essas coisas porque era um espírito radical demais, misógino, influenciado pelo legalismo romano etc. Para desmentir esses curiosos exegetas, no que toca à homossexualidade, basta citar o que dizem outros dois Apóstolos.

O próprio Príncipe dos Apóstolos, São Pedro, nos diz que Deus condenou a uma total ruína as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinzas, para servirem de exemplo àqueles que venham a viver impiamente (cfr. I Petr. 2, 6-9). E São Judas Tadeu em sua epístola afirma que “Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas que fornicaram com elas, e se abandonaram ao prazer infame, foram postas por escarmento, sofrendo a pena do fogo eterno”. (Jud, 7)

(Santo Agostinho - Autor desconhecido.)
Santo Agostinho vitupera o pecado contra a ordem natural

A Tradição multissecular da Igreja recolheu em seu magistério a mesma rejeição a qualquer condescendência com a sodomia. Por exemplo, Santo Agostinho, grandíssimo Doutor da Igreja, afirma que “as devassidões contrárias à natureza devem ser condenadas em toda a parte e sempre, como o foram os pecados de Sodoma”. E ainda agrega um pensamento que deveria fazer refletir os brasileiros inclinados a imitar servilmente os países supostamente mais “p’ra frente”: “Ainda que todos os povos as cometessem [as devassidões contra a natureza], cairiam na mesma culpabilidade de pecado, segundo a lei de Deus que não fez os homens para assim usarem dele [o instinto sexual]” (cfr. Confissões. C. III, pág. 8)

Santo Tomás de Aquino equipara o homossexualismo ao canibalismo

Santo Tomás de Aquino chega a colocar a prática da homossexualidade no mesmo plano de pecados torpíssimos — como o de canibalismo — por ser, como eles, um atentado contra a própria natureza.

E o grande São Pio X, em pleno século XX, ensina em seu catecismo que a homossexualidade, por seu caráter antinatural, está entre os pecados que provocam a ira de Deus e clamam por vingança.

A exigüidade deste artigo me impede citar ainda outros testemunhos, mais recentes, da enérgica reprovação de Deus e da Igreja à sodomia. Mas esses poucos já permitem constatar à saciedade que Deus não ficará indiferente diante de uma eventual aprovação do dito “casamento” homossexual no nosso tão amado Brasil, o maior país católico do mundo.

Se as coisas continuarem a correr do jeito que vão, manterá o Brasil essa condição de católico?



O submarino comunista



Pe. David Francisquini

Como sabemos, em Cuba mantém-se o regime marxista-leninista clássico. Castro, depois de tomar o poder pelas armas e instalar o paredón, “reelegeu-se” desde 1959, até o momento em que problemas de saúde obrigaram-no a entregar o poder a seu irmão.

Por sua vez, o venezuelano Hugo Chávez e seus companheiros bolivarianos –– Correa no Equador, Morales na Bolívia, Lugo no Paraguai, Ortega na Nicarágua –– tornaram-se coadjuvantes de Cuba. Logo atrás, com variadas velocidades, caminham na mesma direção Lula, o casal Kirchner, Bachelet e outros dirigentes latino-americanos.

Assim, a América Latina –– continente de maior população católica do mundo, esperança da Igreja no futuro –– vê-se diante da triste e ameaçadora realidade do “socialismo do século XXI”, que não é senão uma adaptação do antigo comunismo ateu, materialista, violento, sanguinário e persecutório. O submarino comunista voltou à tona e ameaça tragar um continente inteiro.

Tudo ia caminhando, quando um pequeno país, Honduras, percebendo o rumo trágico que seu dirigente ia dando à nação, levantou-se como o pequeno David diante do gigante Golias. E com o apoio de todas as forças vivas daquela nação, suas autoridades puseram para fora do governo o presidente “chavista” Manoel Zelaya. Pois este, com o apoio escancarado de Hugo Chávez, violara gravemente a Constituição do país.

Embora se intitulem democratas e promovam constantes eleições e referendos para mascarar suas tiranias e se perpetuarem no poder, os “chavistas” reprimem tudo o que se lhes oponha. Ao mesmo tempo eles estatizam a economia, promovem a “idolatria” de seus chefes, amordaçam a imprensa, perseguem seus opositores e implantam leis cada vez mais atentatórias à moral cristã e ao Direito natural, numa ruptura com o passado de seus povos. São leis como o divórcio, o aborto, a eutanásia, o pseudo-casamento homossexual, além de pesquisas com células-tronco embrionárias. E, no campo sócio-econômico, luta de classes, Reforma Agrária confiscatória, estatização das empresas, atiçamento dos índios contra os brancos, discórdias raciais, impostos extorsivos, descriminalização das drogas, sem falar do controle do Estado em todos os campos, como na educação e na saúde.

Assim como a Áustria, ocupada pelos soviéticos no fim da II Grande Guerra mundial, só conseguiu expulsar os invasores mediante a recitação do santo rosário, numa verdadeira cruzada de oração à Maria Santíssima, rezemos também Àquela que é “terrível como um exército em ordem de batalha” para que nos liberte da presente ameaça que nos circunda.

Que Nossa Senhora de Guadalupe, Padroeira das Américas, proteja Honduras e todo nosso continente de tal perigo.

O homem do campo



Pe. David Francisquini
Como de costume, este ano já percorri a região rural de meu município no pastoreio das almas que me foram confiadas. Com alegria, pude notar que a paisagem contrastava com a do ano anterior. A terra ressequida, batida e nua deu lugar a vegetação, pois chovera praticamente o ano todo, o que deixa o homem do campo feliz da vida.

O ambiente acolhedor, calmo, distendido e aprazível foi sempre ocasião para boas e longas conversas, motivo de entretenimento e descanso, longe do frenesi, da agitação e da eletricidade que grassa nas megalópoles modernas, e que se estendem até as cidades de porte bem menor. Nelas, o prazer parece se encontrar ora nas altas velocidades das barulhentas motocicletas e carros, ora em permanecer horas a fio diante da TV e da internet ou dos jogos eletrônicos. Distanciados disso, há ainda os que se ajuntam nos botequins para se embriagarem, ocasião para desavenças e até homicídios.

É tal a saturação da cidade, que basta um feriadão para que as estradas fiquem insuportáveis, pois as pessoas procuram alívio para suas almas aflitas. Outrora era ocasião para freqüentarem as festas religiosas, assistirem às missas, participarem das procissões, pois aprendiam que a verdadeira felicidade só se encontrava em Deus.

Era ocasião também das visitas entre amigos e parentes para se irmanarem no seio das famílias constituídas e, ao matar saudades, gozarem de uma verdadeira felicidade que é calma e casta. Hoje, as pessoas procuram desenfreadamente as praias, e toda sorte de divertimentos neopagãos.

Na medida em que percorria a extensão geográfica de minha paróquia, foi vincando em meu espírito o seguinte pensamento: quantas almas se perdiam ali por não procurarem os sacramentos e a vida religiosa. Mas uma coisa era clara: a diferença entre o homem do campo e o da cidade. O camponês ainda pensa e conversa. Ele tem suas falhas, como a falta de freqüência aos atos religiosos e o relaxamento na indumentária. Mas ainda conversam sobre temas com certa profundidade e precisão, que surpreendem quer pela elevação quer pela sabedoria, lembrando o entretenimento de Nosso Senhor com temas como a semente lançada na terra, a ceifa, os lírios dos campos, a videira, a mostarda, os pássaros, o pastor de ovelhas, a serpente. E até a galinha com seus pintainhos.

Todo esse panorama em que o homem fica envolto no meio rural serve de lição para compreender e antegozar o Reino dos céus. Não precisa ser observador profundo para perceber quanto o camponês tira de seu ambiente lições para a vida. O contato com a terra tem seus momentos difíceis, mas leva com freqüência a meditar e a relacionar as coisas com Deus.
“Isto é o meu corpo”







Pe. David Francisquini
Instituições, cerimônias, manifestações de piedade surgidas misteriosamente pela ação da graça divina foram registradas na História da Igreja. A parábola evangélica que compara o Reino de Deus – a Igreja Católica – ao grão de mostarda pode-se aplicar aqui. A menor das sementes ao germinar e crescer torna-se a maior de todas as hortaliças, a tal ponto que as aves do céu podem fazer ninhos em seus ramos.

Com a vinda do Espírito Santo, a Igreja – minúscula comunidade em Jerusalém – difundiu-se por toda parte, à semelhança de imensa árvore que estende seus galhos. Um aspecto da ação do Espírito Santo na Igreja e nas almas é a devoção ao Santíssimo Sacramento. Com aquele grupinho reunido com Nosso Senhor Jesus Cristo no Cenáculo, na Quinta-feira Santa, passou-se algo de transcendental importância.

O Divino Mestre instituiu o Sacramento da Eucaristia, ao mesmo tempo em que tornou-se presente aos homens sob as espécies eucarísticas do pão e do vinho consagrados no sacrifício da Nova Lei, a santa Missa. Essa semente de vida teve tamanha força de expansão que a Eucaristia foi colocada no centro da vida cristã. E tendo Ela fecundado, fez desabrochar a civilização católica, cujo apogeu se deu na Idade Média.

A Igreja lançou raízes profundas nos povos e é inegável que a civilização cristã deitou benfazeja influência na Terra inteira. No momento mesmo em que seria traído, no ápice de sua aparente derrota, Nosso Senhor Jesus Cristo obtinha a vitória, pois ali o Homem-Deus nos cumulou com o Sacramento do divino amor: “Isto é o meu corpo”, “Este é o cálice do meu sangue”.

Para enriquecer o culto sagrado e preservar o Sacramento da Eucaristia de abusos, profanações e sacrilégios, surgiram costumes, leis e normas. O que transparece em torno de tais normas é o respeito, a compostura, o espírito de piedade e devoção, todo um modo de agir e de ser que atestam a nossa fé e o nosso amor na presença real de Nosso Senhor na Hóstia consagrada.

Tudo feito com precisão, dignidade e elevação, pois se trata do culto ao verdadeiro Deus. Exemplos de culto eucarístico são as genuflexões, os ricos e adornados sacrários, os ostensórios, os cálices, as âmbulas e as tecas para levar a comunhão aos enfermos. E até mesmo as patenas, utilizadas para evitar a queda de hóstias e de seus fragmentos no momento da distribuição da comunhão as fiéis.

Aspecto mais belo e tocante do culto divino é a bênção solene do Santíssimo Sacramento. Doze velas são acesas no altar, seis de cada lado do sacrário. A sagrada Hóstia é colocada num rico ostensório. O sacerdote usa paramentos solenes, como a sobrepeliz, a estola, o pluvial e o véu umeral. Ele sustenta o ostensório e traça grande cruz sobre os fiéis ajoelhados, e depois reza e canta hinos de adoração.

Enquanto isso, um acólito com o turíbulo incensa o Santíssimo Sacramento, enchendo o ambiente com um aroma perfumado que acaba por dominar suavemente todo o recinto. Aquela fumaça branca e odorífica se impregna na igreja inteira, podendo ser sentida até fora do edifício da Igreja.
Aborto de anencéfalicos: violação da Lei de Deus e da Lei natural



Pe. David Francisquini

Diante da possibilidade de legalização do aborto para fetos anencéfalos, percebe-se o embuste que lesa a dignidade e a honra da pessoa humana. Posto o processo de fecundação, não se pode provocar uma interrupção direta e voluntária de uma vida humana, porque isso contraria a ordem estabelecida por Deus na natureza. Além de inconstitucional, é pecado de malícia peculiar que clama aos Céus por vingança.

Caso persista tal obstinação abortista, não podemos descartar que a justiça divina se faça sentir no Brasil. Não bastassem as muitas leis iníquas já aprovadas pelo Congresso, recrudesce agora tentativa da introdução do aborto. A voz de tantos seres humanos, silenciadas ainda em botão, estarão a bradar ante Deus por castigos.

Deus disse a Caim, que matou seu irmão Abel: “Que é que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama desde a Terra até a Mim. Agora, pois, serás maldito sobre a Terra... quando tu a tiveres cultivado, ela não te dará os seus frutos: tu andarás como errante fugitivo sobre a Terra” (Gen. IV, 10).

O que pensar de um tribunal decidindo a sorte de incontáveis vidas de nascituros? Faz-me lembrar Nosso Senhor Jesus Cristo sendo julgado pelo magistrado romano, ou ainda as figuras sinistras de Hitler e Stalin, dos regimes nazista e comunista, matando com requintes de crueldade milhões de pessoas.

A tentativa de revogar o quinto Mandamento da Lei de Deus e a própria Lei natural corresponde a uma revolta contra Aquele que o instituiu, e que criou a natureza humana.

Minha alma de sacerdote católico, apostólico, romano vê com tristeza o fato de o Episcopado nacional não estar dando a devida atenção a tão grave ofensiva à ordem criada. Sua preocupação preponderante refere-se à questão social, a propósito da qual – diga-se de passagem – enfoca o mais das vezes de modo equivocado a doutrina social tradicional dos Sumos Pontífices, causando essa atitude perplexidades em muitos fiéis.

O aborto direto e voluntário constitui pecado friamente premeditado, que revolta o senso moral do homem, e consiste em crime de homicídio. A Igreja católica pune com pena de excomunhão quem o pratica ou participa diretamente de sua execução. Mesmo que o pretexto para executar um aborto seja a anencefalia do nascituro, pois contraria a doutrina milenar da Santa Igreja: Deus, ao criar o homem à sua imagem e semelhança, concedeu-lhe um fim supremo e eterno; e somente Ele tem o direito de tirar a vida de sua criatura.

Ao ser gerada uma vida humana, debilitada ou com defeitos, não se pode negar que ela tenha alma imortal, concebida no pecado original e que deve receber o batismo, meio absolutamente necessário para se salvar, pois assim se exprimiu o próprio Nosso Senhor: “Quem não renascer na água e no Espírito Santo, não poderá entrar no reino dos Céus”.

Cabe lembrar que as relações de cada alma com Deus constituem um mistério que paira acima do desenvolvimento mais ou menos perfeito de sua sensibilidade, e mesmo de sua inteligência. Tais relações começam, quando a criança está sendo formada no seio materno.

Em meu múnus sacerdotal, já deparei com casos de mães que enfrentaram toda a pressão que se costuma exercer sobre elas em caso da anencefalia ou de outro defeito físico do nascituro; e deram à luz crianças cujo batismo eu mesmo administrei. Houve até um caso em que foi diagnosticada anencefalia, mas que, na realidade, não o era. A criança nasceu, recebeu o batismo e está viva até hoje. Quantos casos como este não haverá por este Brasil afora? Os defeitos físicos são muitas vezes decorrências do pecado original e, apesar do batismo apagá-lo, não elimina da natureza humana suas conseqüências. Devemos saber suportá-los com verdadeira resignação cristã.

Compreende-se, em vista disso, a tristeza e a dor com que Nossa Senhora apareceu em Fátima, lamentando os pecados e crimes cometidos pelos homens e mostrando Seu Coração cercado de espinhos, nele cravados sem dó nem piedade pelos homens ímpios.

Confiemos na Virgem Santíssima e no triunfo de Seu Imaculado Coração.
E não nos deixeis cair em tentação



Pe. David Francisquini


Estou convicto de que a maior prova arrostada pelos fiéis de hoje consiste na crise religiosa e no seu corolário, a crise de fé. Como enfrentá-las e vencê-las com resignação e confiança próprias de um verdadeiro filho de Deus e da Igreja? Como o sacerdote católico concorre para ajudar a alma provada restituindo-lhe a paz interior?


Levando em conta a ação ordinária dos demônios sobre os homens, em razão do profundo ódio que aqueles tributam às criaturas que deverão ocupar os seus lugares na corte celestial, lançam eles mão de todos os meios para conduzir os homens ao inferno. Tal ação consiste em seduzi-los através de fatos ou realidades, agindo sobre os cinco sentidos externos.

O demônio age também nos sentidos internos, de modo especial na memória e na imaginação, a fim de mover o livre arbítrio do homem ao pecado. Pinta a tentação com cores vivas, influi sobre a psicologia humana, desencadeia paixões para debilitar a vontade e fazer com que ela dê assentimento ao pecado.

Amparados pela graça e na medida em que haja resistência contra as atrações sedutoras do demônio, o homem pode não apenas vencer as tentações, mas tirar proveito delas para aumentar seus méritos e conquistar depois a bem-aventurança eterna. Jesus nos ensinou a ser vigilantes e rezar para não cairmos em tentação: “E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Amém”.

O demônio exerce ainda outras ações extraordinárias como a infestação, a vexação, a obsessão e a possessão. Tais ações são comuns nos dias atuais e se fazem presentes nos ambientes, nas pessoas, nos sentidos do homem, chegando mesmo o maligno a possuir o próprio corpo humano.

Tal poder é concedido por Deus ao demônio para castigo dos pecados do homem. Muitas vezes o diabo recebe permissão de Deus para atingir a saúde e os bens materiais da pessoa tentada, como aconteceu com Jó, que saiu mais purificado do embate com o príncipe das trevas, nunca perdendo a confiança em Deus.

Cabe ressaltar que tal ação diabólica não é milagrosa, porque milagre só Deus pode fazer, diretamente ou através de um santo ou de sua Mãe Santíssima. As ações extraordinárias provocadas pelos espíritos infernais podem ser afastadas muitas vezes pela oração, pela recitação do terço, pelo uso de água benta e de medalhas, como a Medalha de Nossa Senhora das Graças (foto) e de São Bento. Quando se tratar de possessão, é necessário recorrer ao exorcismo da Igreja feito por um sacerdote autorizado.

Existe atualmente uma difusa, mas intensa apologia do vício. Para os seguidores de satanás, os vícios não são senão “virtudes”. Segundo tal critério, o homem que pratica o vício procede de acordo com a sua própria natureza. No entanto, isto é o contrário do ensinamento da Igreja Católica. A mentalidade satanista conduz o homem ao sexo desenfreado, à profanação do sagrado, à uma virulenta oposição ao Evangelho, à Igreja e à sua Liturgia.

Como epílogo, cabe lembrar o que diz a Sagrada Escritura sobre o demônio, após o pecado de nossos primeiros pais: “Porei inimizades entre ti e a Mulher, e entre a tua descendência e a descendência d’Ela. Ela te esmagará a cabeça e tu armarás traições ao Seu calcanhar” (Gen. III, 15). Confiemos na Mãe de Deus e nossa, e sairemos ilesos desta batalha sobre a qual nos alertam São Pedro e São Paulo em suas epístolas.
Onde está a felicidade?

Pe. David Francisquini

Após termos meditado sobre a paixão e morte de Cristo durante a Semana Santa, é normal que gozemos de justa paz interior advinda das múltiplas celebrações litúrgicas. Tal paz é o reflexo da boa ordem infundida por Deus nos corações depois de uma confissão bem feita, de ter rezado e recebido Nosso Senhor na Eucaristia, acompanhado as procissões e convivido com cerimônias religiosas ricas em significados.

Não precisa muito discernimento para perceber nas pessoas que assistiram às cerimônias quanto mais sensíveis e abertas elas ficam para o sobrenatural e a vida cristã. As fisionomias recobram louçania, fruto da alegria advinda da liturgia da Igreja, quando bem celebrada. Mas de onde vêm esta felicidade e esta alegria a ponto de se desejar ao próximo uma santa e feliz Páscoa?

A palavra religião vem do latim religare, isto é, ela nos liga a Deus, fonte de toda alegria e de toda felicidade. Portanto, elas procedem de Deus, uma vez que A Igreja Católica Apostólica Romana, fundada e instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo, tem os meios para nos comunicar a graça divina, o caminho para se chegar a Deus, a doutrina e os ensinamentos, os quais devemos acatar e acreditar.

Para ser feliz, é preciso estar na amizade de Deus. É preciso ser cristão, ser batizado, crer e professar a doutrina de Jesus Cristo, freqüentar os sacramentos, especialmente os da Confissão e da Comunhão, assistir às santas missas nos domingos e dias de festas. É preciso também o matrimônio religioso e não apenas a união civil, que consiste em viver em concubinato. É preciso praticar o bem e evitar o mal. O pecado é uma desobediência aos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja.

Para não pecar contra Deus, contra o próximo e contra si mesmo é indispensável a oração. “Quem reza se salva, quem não reza se condena”, disse Santo Afonso Maria de Ligório. Nosso Senhor nos manda amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. E os autores de boa doutrina aconselham a ter uma entranhada devoção a Virgem Maria, para assim conseguir a graça de Deus e a salvação eterna.

Jesus Cristo nos veio por meio de Maria e é por meio d’Ela que devemos também ir a Ele. A Mãe cheia de misericórdia não permitirá, com sua poderosa intercessão, que caiamos na desgraça do inferno, lugar onde os condenados sofrem a ausência de Deus e são queimados por um fogo inextinguível. Concorrerá Ela empenhadamente para ganharmos o Céu, onde os justos e os anjos contemplam a Deus na felicidade eterna.

Ninguém ama aquilo que não conhece. Assim, é preciso que o verdadeiro cristão procure estudar a doutrina católica, é preciso tomar conhecimento das verdades ensinadas pela Santa Igreja. Caso contrário, a sociedade mergulhará ainda mais na crise religiosa e moral, encharcada que está em pecados de toda ordem, como, por exemplo, o roubo, o adultério, o homicídio, a impureza e os maus costumes. Se quiser ser feliz, procure ser amigo de Deus, fonte de todo o bem. Não procure a felicidade nas miragens que o mundo oferece.
A sabedoria do homem do campo



Pe. David Francisquini
Costumo, por ocasião dos festejos do Imaculado Coração de Maria e de Nossa Senhora Aparecida, visitar nosso meio rural, ocasião em que procuro ajudar as famílias com conselhos, bênçãos das casas, dos animais e doação de objetos de piedade. O contato com as almas depende da receptividade de cada lar, mas – em princípio – boa parte do tempo é dedicada aos assuntos do dia-a-dia das pessoas e suas famílias. Ouço de tudo um pouco, deixando as pessoas falarem do que gostam ou necessitam, e vou respondendo de acordo com os princípios do Evangelho.

Em minha mais recente andança, o tema dominante foi a seca: as pedras do fundo dos rios aparecendo, os pastos ressequidos pelo sol causticante, a terra batida e erodida, os animais à procura de alimento e de água, as maritacas barulhentas buscando frutos; mais além, bandos de urubus rodeiam animais mortos, um lagarto ou uma cobra se contorcendo à procura de uma presa. Contemplando os campos vazios de moradores, surgiu em meu espírito a idéia de abandono, de falta de vida, de indolência, de interesse e de progresso.

Em tempos não muito longínquos, essa mesma região era próspera e seus habitantes negavam-se a receber um cargo público, porque era possível enriquecer-se no campo. Havia fartura e facilidade de se obter dinheiro. Hoje no entanto alastra-se a pobreza e as pessoas vão para as cidades já abarrotadas, em busca de dias melhores, tendo que morar em conjuntos habitacionais pobres de arquitetura e de urbanismo, verdadeiros pombais, quando não em favelas, passando a freqüentar botequins, em torno dos quais grassam as drogas, a prostituição e a violência.

Da infertilidade dos campos, transpus-me para a pior das secas, que é a espiritual, observada em nossas cidades, freqüentemente mergulhadas no caos moderno, onde vivem, no mais das vezes, pessoas sem brilho, pela ausência da graça divina. Sem sorriso nos lábios, com semblantes melancólicos, desesperançados; pessoas vestidas de maneira ridícula, sem recato e elegância. Em suas fisionomias transparecem a angústia de andar sem rumo e a falta de perspectiva de vida. Atacadas pelos vícios e pelos demônios, como urubus que avançam sobre a carniça, essas almas deixam-se sucumbir, porque estão religiosamente desorientadas.

Para resolver o problema do campo, notei na sabedoria campestre –– fruto do silêncio e da reflexão –– uma ciência peculiar, digna de ser registrada, tanto mais quanto Nosso Senhor Jesus Cristo ilustrou muito de sua doutrina nos Evangelhos com exemplos da natureza: o semeador que semeia a boa semente; o homem mau que semeia a cizânia; o fermento que leveda a massa; o sal que salga e a luz que ilumina; os lírios do campo que não trabalham, nem fiam...

O meu interlocutor calmo, ponderado, com seu cigarro de palha, não tardou a surgir. Juntos, refletimos sobre a comunicação das águas do solo com as do subsolo e sua comunicação com a atmosfera em forma de vapor. E como tal relacionamento propiciava a formação do clima necessário para que haja vida na terra. Elucubramos ainda como o acontecer na ordem estabelecida por Deus, e trabalhada pelo talento do homem, poderia conduzir a civilização do campo a nobres empreendimentos. Numa transcendência, subimos ao mirante de Deus, ou seja, à ordem sobrenatural.
( O Pai Nosso I - II e II )
Mestre, ensina-nos a rezar!



Pe. David Francisquini

Os apóstolos, em certa ocasião, dirigiram-se a Nosso Senhor Jesus Cristo e Lhe pediram: “Mestre, ensinai-nos a rezar”. E Ele lhes ditou a oração do Pai Nosso. Não há oração mais bela, mais eficaz, mais agradável a Deus, mais rica em significado e com mais profundidade de conteúdo do que o Pai Nosso.

Com efeito, são inesgotáveis os pensamentos, as idéias ou os comentários que se possam tecer a respeito dessa singular prece. Chamada também oração dominical, pois provém da palavra latina dominus, que significa senhor, ela brotou dos sagrados lábios do nosso Salvador e Redentor.

Dentro do exíguo espaço de um artigo, é tarefa impossível discorrer sobre os ensinamentos contidos no Pai Nosso. Por isso, tratarei hoje de uma parte, deixando a outra para uma próxima ocasião.

Como é sabido, o Pai Nosso contém sete petições: as quatro primeiras pedem o bem, e as outras três, que sejamos livres do mal.

Começamos por invocar a Deus como ‘Pai nosso’ — e não ‘pai meu’, pois somos filhos do mesmo Pai, e, portanto, irmãos, obrigando-nos a rezar uns pelos outros. ‘Que estais no Céu’ — indica que Deus se manifesta em sua glória. Com isso, habituamo-nos a pensar em Deus, que um dia veremos face a face na bem-aventurança eterna.

1ª petição: “Santificado seja o vosso nome”. Ela nos convida a pedir que Deus seja conhecido, honrado e servido por todos os homens, inclusive cada um de nós. Ao mesmo tempo, pedimos que os infiéis sejam batizados, os hereges se convertam e voltem ao seio da Santa Igreja, os cismáticos se reagrupem em torno da Igreja, os pecadores se convertam e os justos sejam perseverantes no bem.

2ª petição: “Venha a nós o vosso reino”. Entendemos um tríplice reino espiritual, primeiramente em nós, com sua graça santificante e pelas virtudes teologais da fé, esperança e caridade, reinando sobre nossa inteligência, nosso coração e nossa vontade.


Depois o reino de Deus na Terra, ou seja, que a Santa Igreja Católica se dilate cada vez mais e se propague pelo mundo inteiro para a eterna salvação do gênero humano e glória de Deus. Em seguida, o reino nos Céus, ou seja, para que um dia possamos ser admitidos na corte celestial, onde seremos plenamente felizes.

3ª petição: “Seja feita vossa vontade, assim na Terra como no Céu”. Move-nos à obediência pronta e amorosa aos Mandamentos de Deus, como os anjos e santos no Céu. Pedimos ainda a correspondência a todas as luzes e graças divinas e de vivermos resignados com a vontade de Deus.


Isto é tão evidente que fazer a vontade de Deus é procurar conseguir a salvação eterna, pois ninguém entrará no Reino dos Céus se não tiver feito a vontade do Pai. A vontade de Deus está consignada nos seus Mandamentos, nos preceitos da Igreja e nos superiores colocados por Deus para nos guiar no caminho da salvação.

Nada daquilo que costumamos chamar mal acontece sem a permissão de Deus, que sabe tirar o bem do mal, e por isso o permite. Devemos ver em todos os acontecimentos bons e maus um desígnio de Deus, visando nossa salvação eterna.






O Pão nosso de cada dia...

Ao rezarmos o Pai Nosso, surgem no espírito inúmeras passagens do Evangelho que nos fazem avaliar a sublimidade dessa oração, na qual está contida resumidamente a essência dos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, o amor a Deus e o amor ao próximo.

É certo que ao rezá-lo, obtemos muitas graças desde que não o recitemos com precipitação, mas com toda atenção e acompanhando com o coração, além do recolhimento de alma. Em recente artigo, tratei das três primeiras petições do Pai Nosso. Hoje tratarei apenas da petição em epígrafe.

O pão nosso de cada dia nos daí hoje é a quarta petição. Pedimos a Deus o necessário para nossa alma e para o nosso corpo. Sendo a alma a parte mais importante de nosso ser, devemos primeiramente pedir os benefícios para a alma.

O homem é capaz de ter uma vida superior, que é a vida espiritual, cuja sustentação advém sobretudo dos sacramentos. Não conseguimos manter a vida sobrenatural sem o auxílio da graça de Deus. Não é só de pão que vive o homem, mas de toda a palavra que provém da boca de Deus.

Na Eucaristia, é o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo que vem a nós em Corpo, Sangue, Alma e divindade. “Quem comer desse pão (Eucaristia) viverá eternamente; o pão que darei é minha carne para a vida do mundo”. Ao rezarmos o Pai Nosso pedimos ao bom Pai do Céu que não nos falte o pão da verdadeira doutrina e a Santíssima Eucaristia.

Como a vida espiritual é sustentada pela seiva divina de Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso corpo é sustentado pelos elementos produzidos pela Terra. Pedimos a Deus que não nos falte o pão, que é o alimento, a vestimenta, a habitação, o remédio, o calor, a luz, a saúde, o bem-estar, o conforto, a prosperidade, a segurança, o emprego.

Dizemos o pão nosso, para com isso excluirmos aquilo que não nos cabe, como as coisas alheias e bens adquiridos de maneira ilícita ou fraudulentamente. Aqui se encaixa o mandamento que nos proíbe o roubo, o furto e até a cobiça das coisas alheias.

Nosso Senhor afirma o princípio da propriedade, como a doutrina social da Igreja sempre ensinou, contrariando a luta de classes, o socialismo e tantos movimentos ditos sociais. Dai-nos, para indicar que esses bens nós devemos desejar não só visando nossa pessoa, mas a toda a família humana.

Se Ele nos der a propriedade com abundância, usemos dela com a virtude da caridade, olhando para os mais necessitados. E também visando auxiliar a casa de Deus, pois assim como Salomão ornou o Templo com ouro, prata, bronze e madeiras finas, assim também nossas igrejas devem ser enriquecidas para homenagem e glória do Criador de todas as riquezas.



O pão nosso de cada dia nos dai hoje, a fim de que desejemos o necessário para a vida e não fiquemos estressados — para usar a expressão usual — com vistas à conquista das riquezas. Como disse Nosso Senhor, a cada dia basta sua aflição. Considero este conselho muito salutar para a cura de tantos males nervosos e psíquicos que grassam na sociedade moderna.

Devemos pedir o que precisamos no presente, sem nos deixar levar pela aflição de espírito com a conquista de bens futuros. Os bens de que não se sabe adquirir e usar com sabedoria só servem para nos causar dor e aflição de espírito.

Livrai-nos do mal

 
Concluímos hoje o comentário ao Pai Nosso que fizemos em artigos anteriores.

Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Nosso Senhor coloca como condição para Deus perdoar os nossos pecados que perdoemos aqueles que nos ofenderam. Prova disso: “Se tendes algo contra teu irmão, vai te reconciliar com ele primeiro e depois volta a fazer tua oblação”, disse o Divino Mestre.

Rezamos "nossas dívidas", pois é de estrita justiça que Deus seja reparado nesta vida ou na outra. Como um devedor tem o dever de pagar as dívidas contraídas com seu credor, assim devemos proceder em relação a Deus, confessando-nos, praticando boas obras, dando esmolas e fazendo penitência por nossos pecados.

Como podemos pedir a Deus que nos perdoe, se guardamos em nossos corações mágoas, ressentimentos, azedumes, ódios, espírito de vingança, inimizades, contendas, rivalidades contra o nosso próximo? Muitas almas se perderam por tais motivos. Deus deseja que tenhamos espírito de bondade e de perdão.

Não nos deixeis cair em tentação. Imploramos a Deus que não permita que sejamos tentados, ou que nos conceda a graça de não praticar o mal ou o pecado quando vier a tentação. Esta provém do demônio, das pessoas, dos ambientes ruins ou ainda de nossas próprias más inclinações e paixões desordenadas.

São esses os fatores que nos levam a transgredir a Lei de Deus, colocando nossa alma em perigo de cair no inferno. De si, a tentação não é um mal. O mal é consentir nela ou colocar-se voluntariamente numa ocasião próxima de tentação. “Vigiai e orai para não cairdes na tentação”, nos adverte Nosso Senhor.

“Não é contra a carne e o sangue que temos de lutar, mas contra as potestades e os dominadores deste mundo de trevas, contra os espíritos malignos que povoam os ares”, alerta São Paulo. E “resisti-lhes firmes na fé”, aconselha São Pedro. Assim procedendo, há o fortalecimento crescente da vontade e das virtudes, além da obtenção de méritos.

Com efeito, Deus prova os justos permitindo a tentação. A fidelidade dos bons floresce e se desenvolve na medida de sua constância e perseverança na resistência ao pecado. É de suma importância colocar-se sob a proteção da Virgem Imaculada, Mãe de Deus e nossa Mãe: “Rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”.

"Mas livrai-nos do mal". Pedimos a Deus que nos livre dos males do passado, do presente e do futuro, especialmente do sumo mal que é o pecado e da condenação eterna que é o seu castigo. Ao dizermos ‘mal’ no singular e não no plural ‘males’ significa o seguinte: para não desejarmos a isenção de todos os males desta vida, mas sim daqueles que Deus considera que para nós é ‘mal’ concretamente, o qual nos afasta d’Ele.

É mais do que lícito pedir a Deus que nos livre de determinadas tribulações, doenças e outras misérias desta vida, mas sempre nos resignando à Sua vontade, caso sejamos submetidos a tais dificuldades. Pois se as tribulações forem da vontade de Deus para proveito de nossas almas, aceitemo-las com toda a resignação cristã. Quando bem recebidas, as tribulações nos levam a reparar nossas culpas e aumentar nossas virtudes. Ao trilharmos o caminho que nos compete neste “vale de lágrimas”, procurando imitar Nosso Senhor Jesus Cristo, chegaremos um dia ao Céu. E junto à corte celeste, gozando da visão beatífica, alcançaremos a felicidade completa por toda a eternidade.

O "amém" no fim do Pai Nosso significa: assim seja, assim desejo, assim peço ao Senhor, assim espero.

O pecado, a pior das escravidões



Pe. David Francisquini


Era domingo pela manhã. Os apóstolos se encontravam reunidos no Cenáculo em companhia da Santíssima Virgem Maria. De repente, um estrondo vindo dos céus, seguido de vento impetuoso, enche toda a casa e anuncia um prodígio de repercussão transcendente. Línguas de fogo vieram pousar sobre a cabeça de cada um deles.

Tal fenômeno deu-se 50 dias após a Ressurreição de Cristo e 10 dias depois de sua Ascensão. Repare o leitor que no Antigo Testamento a festa de Pentecostes era comemorada 50 dias depois da saída do povo hebreu do Egito, quando recebeu no alto do Monte Sinai, pelas mãos de Moisés, as Tábuas da Lei, nas quais estavam gravados os 10 Mandamentos.

O vento forte simboliza o Divino Espírito Santo comunicando aos Apóstolos o fortalecimento de suas vontades. As línguas de fogo, o dom da palavra que os ajudaria na sua trajetória pelas nações, anunciando as verdades eternas, de modo a permitir que todos os povos entendessem as maravilhas de Deus.

Compreende-se assim que uma multidão proveniente de todas as partes se reunisse em torno do Cenáculo. A antítese de Pentecostes teria sido a Torre de Babel, quando Deus confundiu os intentos dos maus pela confusão das línguas, fazendo com que de um momento para o outro deixassem de se entender e se dispersassem.

No Monte Sinai como no Monte Sião, um fogo celeste aparece e um rumor violento se faz ouvir no dia de Pentecostes. Num como noutro, a vontade de Deus se manifesta. Com o povo hebreu, no 50º dia depois de sua libertação do Egito. Na Judéia, no 50º dia após a Ressurreição, para libertar os homens da pior escravidão, a escravidão do pecado.

Pentecostes foi o dia em que a Igreja iniciou sua expansão pela Terra, que São Pedro pregou para três mil pessoas que receberam o Batismo: [...] “Homens judeus, e vós todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto conhecido e com ouvidos atentos ouvi as minhas palavras”. [...] Jesus ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas”.

Os Apóstolos foram os escolhidos do Divino Mestre. Eram pessoas simples da Galiléia, mas com tal vigor de personalidade que se destacavam entre o povo eleito decadente. Apesar do convívio de três anos com o Filho de Deus, eles entretanto se mostravam sem forças para enfrentar o mundo pagão com seus vícios e crueldades, idolatrias e superstições.

O mundo dominado por Roma jazia em profunda treva na qual reinava o pecado. O Divino Espírito Santo veio abrir a inteligência dos Apóstolos, fortalecer-lhes firmemente a vontade e temperar-lhes a sensibilidade para que assim pudessem levar a Boa Nova do Evangelho a todas as nações e a todos os povos.

Desde Pentecostes, depois de ter presidido à fundação da Igreja, o Espírito Santo cumpre a missão de conduzi-La, assisti-La e dirigi-La, de tal forma que as portas do inferno não prevaleceram e jamais prevalecerão contra Ela. Sejamos filhos da Igreja, devotos de Maria Santíssima, templos do Espírito Santo. Assim obteremos paz para nossas almas, proteção para nossos corpos e, por fim, alcançaremos o Céu.
O ambiente rural e a feliz concórdia entre patrões e empregados

Pe. David Francisquini


Sempre tiro muito proveito espiritual, mas também psicológico e intelectual, em meu giro anual pelos campos do norte fluminense. Com efeito, não só a boca fala da abundância do coração. Metaforicamente, a pena também pode falar. Portanto, quero compartilhar com meus leitores o sabor de alguns frutos que colhi de meus recentes contactos com o homem do campo.

Entre as muitas conversas interessantes que mantive em meu mais recente percurso, detenho-me numa de modo particular. O interlocutor já era meu conhecido e, juntos, lembramo-nos da longa e luminosa trajetória da agricultura brasileira. Desde os tempos das capitanias hereditárias, passando pelas sesmarias, quando até as ordens religiosas tinham suas terras de cultivo.

Depois do ciclo da cana de açúcar vieram as lavouras de café, no século XIX, e com a abolição da escravatura aportaram as ondas de imigrantes europeus a povoar essa nova Canaã. As terras foram naturalmente se dividindo, e milhares de proprietários, grandes, médios e pequenos produzem hoje alimentos com fartura e baratos para o Brasil e para o mundo.

O camponês demonstra muita segurança de vida, capacidade de governo, o que por sua vez lhe dá muita auto-estima, pois se sente como senhor da terra, o que concorre para lhe cunhar personalidade marcante. Mas, a conversa ia longe, quando tratamos das relações cheias de harmonia e de bondade entre patrões e empregados. Tempos em que predominava o compadrio.

Havia nas fazendas de café a figura do meeiro que entrava com os braços e o dono com a terra, situação na qual o trabalhador acumulava ao longo de alguns anos renda suficiente para comprar suas terras. As relações amistosas faziam do proprietário compadre do trabalhador e vice versa. Com efeito, reinava ali o espírito muito familiar.

A bondade de nosso povo permitia que todos trabalhassem de acordo com seus dotes, mas ninguém ficava sem atividade. As tarefas eram distribuídas segundo as capacidades de cada um.


Nessa feliz concórdia, patrões e empregados desenvolviam seus talentos. A estrutura agrária sólida permitia que a fazenda fosse uma verdadeira escola de novos proprietários.


Formavam-se homens de têmpera, de determinação e cheios de resolução, predicados mais salientes do homem do campo de outrora. Futuros proprietários partiam para longe, onde compravam terras mais baratas, e com isso foram semeando em nossos sertões e criando novas povoações. Assim, o Brasil transformou-se na potência agrícola que hoje é.

Ainda teria algumas coisas a dizer..., mas o espaço acabou. Quem sabe numa próxima ocasião? Até breve.
À sombra das foices


Pe. David Francisquini


Em artigos anteriores, tive a oportunidade de escrever sobre meus agradáveis e proveitosos contactos com o homem do campo de nossa região. Ele faz parte do Brasil profundo, do Brasil brasileiro. Todo o panorama que o envolve — como já tive ocasião de ressaltar — serve de lição para o Reino dos céus: a semente lançada na terra, os pássaros, os lírios dos campos, a serpente...

Pode-se dizer que o trabalhador rural tem hoje muitos de seus direitos assegurados por lei, mas não é menos verdadeiro que lhe foi retirado um direito fundamental, qual seja o de se enriquecer na terra. Isso porque o governo acabou com a instituição do meeiro, do parceiro, cerceando assim a possibilidade do camponês construir um patrimônio.

Grosso modo, pode-se afirmar que o êxodo rural começou no momento em que as lantejoulas dos empregos na indústria se acenderam nos grandes centros urbanos, erradicando os camponeses da terra onde nasceram e trasladando-os para a vida urbana — aliás, muito pouco urbanizada nas periferias onde eles iam morar. Conseqüência gritante dessa ruptura foi a desintegração de suas famílias.


Contudo, a legenda do camponês enquanto empreendedor, honesto, independente e com senhorio encontra-se tão presente na mentalidade de nosso povo, que os homens da cidade, sejam profissionais liberais, comerciantes, industriais ou políticos sentem que lhes ficaria faltando algo na personalidade se não possuíssem um pedaço de terra. Foi o que pude observar no meu mais recente giro pelos campos. Médicos, advogados, funcionários públicos sempre procuram ter sua terra, onde criam gado e plantam cereais ou frutas. Foi assim que cheguei a entender o tamanho do ódio que certos revolucionários socialo-comunistas e ecologistas têm em relação à nossa estrutura agrária.

Tais revolucionários compreendem perfeitamente o que resta de ordem natural e da civilização cristã de outrora em nosso interior e, por isso mesmo, querem erradicar tais resíduos de nosso meio rural. Eles o fazem através da propalada Reforma Agrária e dos movimentos ditos sociais como o MST, que agem não mais à sombra de cruzes ostentadas ad hoc por “padres de passeata e freiras de mini-saia”, mas da foice e do martelo.

Não são mais as lantejoulas da indústria nos grandes centros que acenam para os homens do campo, mas a demagogia que mentirosamente os convida a se tornarem proprietários rurais, mercê da distribuição de terras efetuada pelo Estado.

Na verdade, eles nunca receberão o título de propriedade como jamais passarão de meros posseiros do INCRA, sem qualquer estabilidade e condição de progresso. Tais lantejoulas não passam de isca lançada pelas esquerdas aos incautos, numa tentativa de cooptá-los para a revolução social que os conduzirá ao ódio a Deus e à sua santa Religião.
O Brasil de ontem, de hoje e de amanhã - I e II


Pe. David Francisquini
Quando ainda seminarista, presenciei –– numa casa paroquial do interior do Paraná –– dois sacerdotes conversando sobre o Conselho Indigenista Missionário. Não sabendo exatamente do que eles tratavam, colocaram-me ao corrente de suas novas incumbências junto ao órgão recém-criado pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil): o indigenismo.

Surpreso, pois não havia índios por lá, e sequer eu vislumbrava o rumo que o clero tomaria na década de 70, quando me cai nas mãos um livro de autoria do pensador católico Plinio Corrêa de Oliveira, com dedicatória: Tribalismo Indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil do século XXI.

Sua leitura veio trazer resposta à minha perplexidade. E observando hoje a celeuma sobre a demarcação de terras na reserva Raposa Serra do Sol e a drástica intenção do governo em expulsar de lá os produtores de arroz, bem como a crescente agitação na América Latina em torno da questão indígena, percebo quanta razão tinha aquele insigne escritor.

Com efeito, o ideal missionário de catequizar, semear o Evangelho, a fé, como fizeram Nóbrega, Anchieta e tantos clérigos que por aqui aportaram, não é mais compartilhado por elementos do clero de nossos dias. Eles promovem uma luta de classes sistemática e um ecologismo radical que ferem toda forma de civilização.

Ao constituir missões entre os índios, a Igreja evangelizava ensinando o que o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo nos legou ao instituir a Santa Igreja Católica, isto é, expandir a fé e os princípios por Ele ministrados e consignados nas páginas do Santos Evangelhos.

Com a evangelização, os missionários faziam obra civilizadora em que os silvícolas se beneficiavam da ação da Igreja, constituindo uma civilização plasmada nos princípios cristãos da propriedade particular, da família, da constituição de cidades estruturadas.

Ali, deveriam levar vida digna e desenvolveriam suas qualidades a serviço de si e de outros, além de criar ambiente propício à salvação eterna e à glória de Deus.

Ao contrário do ideal católico, a neomissiologia prega o desmantelamento da família e da sociedade contemporânea, a extinção do pudor e a morte da tradição cristã. Os novos propulsores desse ideal acusam de tirano, opressor, sanguinário e ladrão o branco que veio para a América.

Eles acusam os missionários e os colonizadores que exerceram missão sagrada, como o Bem-aventurado Padre Anchieta, homem de grande santidade, que obteve notável êxito junto às tribos indígenas. Eles pregam o comunismo-tribal que se ufana de ser mais comunista do que o próprio comunismo.

O que dizer de alguém que pretendesse implantar isso no Brasil? Talvez pudesse ser qualificado de um demolidor utópico que visa destruir a Nação, desmantelar a sociedade e levar o País ao caos, mais ou menos como já vem ocorrendo na Venezuela e Bolívia.

Os neomissionários –– acolitados por órgãos governamentais e não governamentais de todos os naipes –– ora empregando a força, a prepotência e a ameaça na tentativa de criar nações indígenas em nosso hinterland, conduzirão fatalmente o Brasil a uma revolução fratricida. Prometo voltar ao assunto em próximo artigo.

O Brasil de ontem, de hoje e de amanhã (II)




No artigo anterior, manifestei minha perplexidade – sobretudo enquanto sacerdote – diante do programa da neomissiologia adotada pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Os próprios índios não querem ficar no estado em que se encontram. Em contato com a civilização, eles querem viver com dignidade, com saúde, com conforto e bem-estar.

Para entender o que se passa com a neomissiologia, é indispensável o leitor se ater a alguns pontos que a transporta muito além daquilo que Marx e Lenine propuseram. Ela se fundamenta num ponto totalmente falso, ou seja, o de acabar com todas as formas de individualidade, pois isso iria contra o bem comum.

Algumas tribos indígenas são antropófagas e seus membros acreditam que comendo o adversário incorporariam neles as “qualidades” do inimigo. No ser humano, é preciso fazer uma justa distinção entre a pessoa e o seu egoísmo, pois é falso concluir que o homem, vivendo e trabalhando para si e para os seus, seja egoísta e inimigo da sociedade e do bem comum.

A falsa solução que os neomissionários apresentam é que a salvação do “bem comum consiste em que a pessoa seja totalmente absorvida, padronizada e dirigida pela coletividade. Seria o único meio de nos evadirmos do caos infernal do egoísmo”. (Plinio Corrêa de Oliveira, "Tribalismo indígena, ideal comuno-missionário para o Brasil do século XXI", Editora Vera Cruz Ltda., 7ª edição, São Paulo, 1979, p. 41)

Sob tal prisma pode-se compreender a celeuma em torno dos índios, em particular o que vem ocorrendo em nossos dias em Roraima. Não passa pela cabeça dos índios tal concepção, pois ela vai tão longe que nem mesmo o antigo regime soviético professava concepção tão coletivizada de sociedade como preconizam os corifeus da neomissiologia.

Os pregoeiros desse regime, com veemência furibunda, querem o desmantelamento do Estado e de todos os organismos que o integram. O Estado – conforme asseguram – deve desfazer-se em uma galáxia de corpúsculos mais ou menos justapostos e tão autônomos quanto possível. Daí, certamente, a reação do comandante militar da Amazônia, em recente pronunciamento, ao qualificar de caótica a atual política indigenista e atentatória à soberania nacional.

Já em 1560, o Padre Luis da Grã relata que convocou para uma reunião os chefes indígenas da Bahia e os fez comprometer-se, com um juramento, a respeitar quatro pontos: Não ter senão uma mulher; não se embebedar; não dar ouvidos aos pajés; não matar nem comer carne humana. Podemos assim avaliar o que já era naquela época a catequese, a pregação e o ensinamento tradicional junto aos índios. Consistia ela numa série ininterrupta de ensinamentos visando a integração dos indígenas na sociedade cristã.

Anchieta reconhece em carta de 1555 que os índios eram tão indômitos em comer carne humana e a não reconhecer a autoridade, que ele não via outro remédio senão a Europa enviar para cá gente para colonizar e civilizar os silvícolas. Hoje, o CIMI se envolve em luta de raças para conservar os pobres índios no estado de barbárie. Defendem a nudez deles como coisa normal, quando lemos no Gênesis que foi o próprio Deus quem confeccionou e ensinou nossos pais Adão e Eva a se cobrirem, após o pecado original e quando foram expulsos do paraíso.



E o CIMI teima em pregar o contrário do mandado de Jesus Cristo aos Apóstolos: evangelizar, ensinar, batizar e difundir a fé cristã a todos os povos da Terra, como condição para a salvação eterna de suas almas. Diante disto o que fazer?


Devemos rezar a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, para proteger nosso País da desintegração que o ameaça. Que Ela proteja e preserve os índios dessa neomissiologia; que Ela os converta; que Ela proteja todos os brasileiros e faça com que eles vejam e reajam à neomissiologia com a fibra de nossos antepassados, que expulsaram o invasor holandês-protestante, no século XVII.

Não seja incrédulo



Pe. David Francisquini



Os acontecimentos ainda recentes da Semana Santa impelem-nos a fazer uma reflexão sobre a Ressurreição gloriosa de Jesus e de fatos ocorridos logo após esta vitória fulgurante de Nosso Salvador.

Jesus repousou em seu sepulcro como outrora o profeta Jonas no ventre da baleia, mas seus inimigos O temiam. Cientes da profecia de sua Ressurreição, eles pediram a Pilatos que colocasse guardas junto ao jazigo, a fim de evitar que o corpo do Senhor fosse roubado. E eis que se deu um grande terremoto. O anjo do Senhor chegando à sepultura afastou a pedra, e sentou-se em cima dela. Seu aspecto era como de relâmpago, e os guardas quando o viram, ficaram apavorados e como mortos.

Ao recobrarem os sentidos, eles partiram céleres para o Templo, a fim de anunciar a Ressurreição do Redentor. Era a notícia que seus inimigos sequer queriam cogitar. Diante do fato, o que fizeram eles? Deram dinheiro aos guardas para espalhar a notícia de que o corpo do Redentor havia sido roubado enquanto eles mesmos dormiam. Santo Agostinho assim rebateu tal alegação: “Se dormíeis, como podeis ter visto os discípulos roubarem o corpo do Senhor?”.

Se os inimigos temiam a Ressurreição do Salvador, por que os seus discípulos –– testemunhas oculares de incontáveis milagres –– tiveram dificuldade em aceitar tal verdade? Quando as santas mulheres vieram trazer-lhes a boa nova, os Apóstolos foram tardos em crer na notícia. Por que agiram assim? Encontravam-se eles sucumbidos por tão profunda tristeza que, aparecendo Jesus aos discípulos de Emaús, estes não O reconheceram.

Para confirmá-los na fé, o Redentor lhes perguntou: “Que conversas são essas que mantendes pelo caminho, e por que estais tristes?”

Um deles disse-Lhe: “Só tu és forasteiro em Jerusalém, que não sabes o que ali tem passado nesses dias?”

E Ele disse-lhes: “Que é?”.

Responderam: “Sobre Jesus Nazareno, que foi um varão profeta, poderoso em obras e em palavras diante de Deus e todo o povo; e de que maneira os nossos príncipes e sacerdotes e os nossos magistrados o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram”.

E só o reconheceram quando Ele “tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e lhes dava”.

Mesmo Jesus aparecendo e mostrando-lhes as chagas, os Apóstolos tiveram dificuldade em crer. Estavam obcecados pela idéia que lhes dominava o espírito, de que sua crucifixão e morte seriam a maior derrota para a causa do seu reino.

Ao lhes aparecer, foi necessário que Ele pedisse algo para comer. Trouxeram-lhe um favo de mel e uma posta de peixe. Para eliminar qualquer dúvida a seu respeito, Jesus comeu diante deles. Mesmo assim, Tomé, um dos onze não estava presente nesta aparição. Afirmou que só acreditaria se colocasse o dedo na chaga de Cristo ressurrecto: “Se eu não vir em suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o meu dedo no lugar dos cravos, se não meter a mão em seu lado, não acreditarei”.

Dias depois, estavam os Apóstolos de Jesus no mesmo lugar e Tomé com eles. Veio Jesus, estando fechadas as portas: “A paz seja convosco”.

E dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. E disse a Tomé: “Mete aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; chega também a tua mão e mete-a em meu lado; não seja incrédulo, mas fiel”.


Tomé fez a profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.

É oportuno consignar as palavras de Plinio Corrêa de Oliveira a respeito da Mãe do Salvador, por ocasião de sua crucifixão: “Mas há uma lâmpada que não se apaga, nem bruxuleia, e que arde só ela plenamente, nesta escuridão universal. É Nossa Senhora, em cuja alma a fé brilha tão intensamente como sempre. Ela crê. Crê inteiramente, sem reservas nem restrições. Tudo parece ter fracassado. Mas Ela sabe que nada fracassou. Em paz, aguarda Ela a Ressurreição. Nossa Senhora resumiu e compendiou em si a Santa Igreja, nesses dias de tão intensa deserção”.