quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020


De que nos serve uma fonte sem canal?

*Padre David Francisquini

Analisando os fatos históricos decorrentes da ação nefasta do protestantismo – que arrebatou da Santa Igreja metade da Europa –, pode-se conjecturar que mesmo depois do Concílio de Trento prosseguiu um trabalho sutil, matreiro, silencioso e bem orquestrado por parte daqueles que, não aderindo abertamente à heresia luterana, preferiram permanecer no interior do Corpo Místico de Cristo para continuar a corrompê-lo.
Representação de protestantes derrubando imagem
de Nossa Senhora
Essa obra infausta iniciou-se com Jansênio [1585–1638], pregador da volta da Igreja à penitência e aos tempos primitivos. Ele afirmava que, com a Redenção, Cristo não teria morrido por todos os homens, mas apenas pelos eleitos, capazes de obter a graça eficaz para a consecução de todo bem. Essa escola de pensamento religioso levou muitas almas ao temor e ao desespero.
Antoine Arnauld [1612–1694], prócer da mesma corrente herética, publicou o livro A Comunhão frequente, no qual induzia à penitência pública, à dilação da absolvição para satisfação dos pecados e – como meio salutar de penitência –, ao afastamento das almas da comunhão frequente, chamada por ele de “luxúria espiritual”. Apesar disso, seu livro obteve na época a aprovação de nada menos que 11 bispos...
O jansenismo representou um verdadeiro câncer que arruinou o edifício religioso das almas dos fiéis. Ele chegava ao ponto de deixar os doentes morrerem sem os devidos sacramentos. Sem destruir os altares dos santos e de Maria Santíssima, esses inimigos da fé atacavam sutilmente essa devoção, sob o pretexto de afastar abusos e fórmulas exageradas. Aparentemente submissos à orientação da Igreja, os jansenistas procuravam encontrar meios cada vez mais escusos para explicar a vida interna da Igreja, mas sem mudar os sentimentos que os alinhavam aos seus antepassados protestantes.
Frontispício de umas das primeiras edições
(1976) de "Glórias de Maria Santíssima"
No seu afã de mitigar o fervor religioso nas almas dos fiéis, os jansenistas se valeram de todos os ardis possíveis para afastá-los da devoção a Nosso Senhor e a Nossa Senhora. Chegaram a afirmar que se tratava de devoções imprudentes, indiscretas, que concorriam para desacreditar a Igreja. Inimigos sempre os houve na Igreja, ora agindo às claras, ora – mais frequentemente – se apresentando de maneira camuflada, num trabalho paulatino de demolição das instituições eclesiásticas internas e de dessoramento da vida espiritual dos fiéis.
Em seu livro Revolução e Contra-Revolução, Plinio Corrêa de Oliveira cita Pio XII quando este sustenta: “É um inimigo que se tornou cada vez mais concreto, com uma ausência de escrúpulos que ainda surpreende: Cristo sim, a Igreja não! Depois: Deus sim, Cristo não! Finalmente o grito ímpio: Deus está morto”. Se a Revolução é processiva – como podemos ler nas páginas da obra supracitada –, eis o referido processo e seu desenvolvimento no seio da Santa Igreja com o escopo de destruí-La.
Alegando sempre e antes de tudo zelo pelas almas, ei-lo que inicia a ruína individual das pessoas ou de uma instituição como a Igreja. Depois, em nome da fé, procura demolir as devoções multisseculares.  Por fim, começa a se infiltrar em todos os campos da vida humana, para demolir com mais eficácia as estruturas da fé católica, o fervor das principais devoções com foco em Nosso Senhor e Nossa Senhora. Uma vez obtido isso, os bons vão se tornando tíbios, deixando ao inimigo campo aberto para que implante seus mais ímpios desígnios. Assim chegamos ao neopaganismo de nossos dias.
A prova da existência desse processo corrosivo é a onipresença da mentalidade jansenista, a qual se manifesta, por exemplo, sob o manto de muitos sofismas, na protelação cada vez maior da administração dos sacramentos da Confissão, da Comunhão e da Crisma.
Santo Afonso de Ligório
O grande baluarte da luta contra o jansenismo foi Santo Afonso Maria de Ligório. Em suas missões por toda a Itália, ele promovia a devoção a Nossa Senhora e aos santos, pregava os Novíssimos do homem, a visita ao Santíssimo Sacramento, a recitação do Santo Rosário, o exercício da penitência, a frequência aos sacramentos da Confissão e da Comunhão, entre tantos outros bons ensinamentos e práticas. Esse santo escreveu o livro Glórias de Maria Santíssima para combater os erros do jansenismo, além de ter travado um debate apologético contra os seus fautores.
Afinal, para esse grande moralista, a “intercessão de Maria não é apenas útil, mas necessária à nossa salvação. Não de uma necessidade absoluta, mas de necessidade hipotética, pois esta é a ordem providencial estabelecida por Deus. Essa é a vontade de Deus, que tenhamos tudo, mas tudo por Maria. Por isso, procuremos a graça, mas procuremo-la por Maria. Ela é, pois, toda a razão da minha esperança: espero em Deus, fonte da graça, mas de que me serviria a fonte sem o canal que é Maria?"

sábado, 4 de janeiro de 2020


Ouçamos a voz dos Reis Magos


*Padre David Francisquini


O Natal de Jesus Cristo não reflete apenas alegria. Envolto de alegria e júbilo, seu nascimento sugere também tristeza, pois Raquel chora os seus filhos. A noite – que havia sido transformada em luz e paz – se prepara para uma carnificina: a matança dos inocentes, decretada pelo ódio de Herodes ao Menino-Deus. São José e Nossa Senhora se retiram com o Menino para uma terra distante. “Do Egito chamei meu filho”, havia assinalado o profeta Oseias.
A Sagrada Família peregrina pelas sombras da noite, longe dos seus, deixando atrás de si um manto de sangue e de luto causado pelo rei idumeu que, turbado diante do nascimento do Divino Infante, havia ordenado à morte de todas as crianças de Belém e circunvizinhanças. Afinal, quanto maior o poder aqui na terra, maiores são os perigos e temores que parecem ameaçar e cercar o seu detentor.
O Pseudo Crisóstomo – citado por Santo Tomás –, ao falar de Herodes, afirma que assim como os ramos das árvores mais elevados são os mais agitados pelo vento, os homens que ocupam altos postos se abalam diante do menor e mais tênue sinal de ameaça à sua dignidade, ao contrário das pessoas de condição humilde acostumadas a uma vida tranquila e serena.
Isso parece ser uma constante a assaltar à consciência dos grandes desta terra, ciosos e ao mesmo tempo insaciáveis na defesa de suas prerrogativas e posições. Picados pela vanglória, muitas vezes eles sacrificam a própria honra e dignidade, como ocorre não poucas vezes no mundo político, empresarial, e mesmo no judiciário. Todos cometem os mesmos pecados e as mesmas infâmias, indiferentes aos valores morais, à instituições como a família, as boas tradições, aos bons costumes, enfim à própria sociedade. 
Algo assim não se passa no nosso Brasil quando são aprovadas leis atentatórias à moralidade pública e às nossas mais caras instituições e valores? O que acontecerá quando o Rei-Menino, sentado no mais alto dos Céus à direita de Deus Pai, próximo à sua Mãe que O amamentava, vier um dia sobre as nuvens julgar àqueles que hoje promovem o crime e a impiedade nesse pequeno lapso de vida nesta terra de exílio?
Naquela ocasião Herodes, ao ser instigado pela inveja e pela ambição a reinar no lugar do próprio Deus, fez o papel de Satanás. Aquilo que Satanás fez quando se revoltou no Céu, Herodes quis fazer aqui na terra, a fim de perpetuar o seu poder. E isso se passa com intensidade maior ou menor entre os seguidores das máximas de Satanás.
A voz dos Reis Magos ecoou em todos os corações, bons e maus, ao perguntarem sobre o local onde se encontrava o recém-nascido, o Rei dos judeus, pois a grande estrela que os guiava não mentia. Se os maus a ouviram e foram diligentes em maquinarem o mal, será que os bons também ouviram o convite para marchar rumo à Belém, ou mesmo até ao Egito, a fim de acompanhar e resguardar o Deus Encarnado a fugir da sanha de Herodes? Será que tal diligência se encontra sempre do lado daqueles que procuram Nosso Senhor Jesus Cristo não para amá-Lo e segui-Lo, mas para tramar contra Ele?
O móvel orientador desses corações empedernidos é o ódio destruidor e assassino. É bem esse escândalo que se repete em nossos dias com a constante tentativa de introdução do aborto, da eutanásia, da ideologia de gênero, do pseudo-casamento de pessoas do mesmo sexo, da prostituição e demais aberrações. Numa palavra, visam a morte da civilização cristã e a introdução do caos e da desordem contra Jesus Cristo.

domingo, 22 de dezembro de 2019


Eis aqui a escrava do Senhor!”

*Pe. David Francisquini

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”... E o Filho de Deus se fez homem. Também poucas palavras bastam para Jesus Cristo descer ao altar como sacramento e vítima, e imolar-se por nós. Enquanto Deus tira do nada todas as coisas, para fazer-se homem quis depender do consentimento da Virgem Maria: – “Como se fará isto se não conheço varão?”
Disse-lhe o Anjo: – “A virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra, portanto o santo que há nascer de ti será chamado Filho do Altíssimo”. No consentimento da Santíssima Virgem, o Filho de Deus se encerrou em seu ventre e “habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como de unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”, (Jo 1, 14).
João descreve a geração eterna do Filho – que quer dizer Verbo –, gerado antes de todas as coisas, proclamando a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo que se torna homem. Com duas naturezas unidas numa só pessoa, que é a pessoa do Verbo, Ele veio a este mundo sem deixar de ser Deus e toma a forma de servo para remir a humanidade pecadora.
No Natal comemoramos o homem-Deus que se tornou criança, singela, encantadora, cintilante de luz divina, pequeno para conduzir os pequenos, e grande, imenso, para atear o fogo do divino amor nos corações dos homens. Não há língua capaz de descrever a sublimidade da noite de Natal, que se tornou noite de luz, noite em que Maria e José contemplaram o Menino-Deus reclinado em um presépio.
Noite em que a Terra se liga ao Céu, a natureza toda se reluz de uma alegria sem par, noite em que os Anjos cantam o mais belo hino ao Deus-Menino que enche de luz os corações dos homens. Quem Vos fez nascer num pobre estábulo, reclinado numa manjedoura? Vós que estais acima dos Céus, acima dos astros e de todo o firmamento? Quem Vos arrancou do seio do Eterno Pai para se reclinar numa gruta fria, sendo o Senhor do universo?
Entre os Serafins e Querubins, entre os esplendores e belezas do Céu, Vós vos reclinais agora em um presépio? Para quê, Senhor? Vós que num só movimento determinais as funções dos astros e de todo firmamento, Vos reclinais, pobre e indefeso, diante de uma Mãe que Vos contempla? Vós que concedeis alimento aos homens e aos animais, necessitais de um pouco de leite para Vos manter sobre a Terra.
Por ora gemeis e chorais, ó pequena criança, mas o vosso pranto é como uma melodia que se ergue da Terra ao Céu; precisando de amparo, sobe às alturas como um incenso de suave odor, como uma oração sublime, pois saída dos lábios divinos. Quem Vos contempla no presépio não deixa de se enternecer diante de tão encantadora e divina presença.
Quem analisa o vosso olhar celeste que penetra no fundo das almas e vê o recôndito dos corações, ajoelha-se em profunda adoração, percebe a solução de todos os problemas! Vós sois o Senhor do universo, Aquele que existe antes de todas as coisas, nada havendo de criado que não fosse feito por Vós, dignai-Vos a nos contemplar nesta noite em que nascestes.
Vosso olhar, pleno de ternura e bondade, possui uma movimentação de tal modo harmoniosa, que o universo não pode explicar sua grandeza e melodia. Aquele que os Céus e a Terra não podem conter está reclinado num presépio pobre e humilde.
Os Natais de outrora, meu Senhor Jesus, eram revestidos de doçura e beleza sem par, mas eis que nos encontramos no Século XXI depois do primeiro Natal, e tudo o que nos rodeia é tristeza e apreensão pelo que se passa com a vossa Esposa santíssima, o vosso Corpo Místico, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
A cristandade foi envolta pelas trevas e erros, desilusões e desamparos por parte daqueles que, em vez de ser o sal que salga, a luz que ilumina e o fermento que fermenta, se transformaram em elemento de autodemolição, de apodrecimento, de desunião. Há, contudo, uma esperança que não morre, há uma certeza que não desmorona, há uma vida que não se desfaz, pois o vosso presépio é um marco de certeza, de esperança, de vida, de virtude que continua sob as cinzas.
O fogo de vosso amor é mais forte que a morte, a vossa vida é mais invencível do que todos os infernos, porque Vós tendes palavras de vida eterna, Vós sois o Rei do universo. Nessa perspectiva, ó Senhor, que ora contemplamos na manjedoura – ali encontramos José e Maria, os pressurosos pastores, e os reis cheios de esplendores e grandezas –, Vós vindes para reinar. Reinai, Senhor Jesus, nos corações dos homens!
São súplicas que Vos dirigimos. O Natal para os homens é o anúncio de uma grande nova, pois Cristo se fez carne por nós. O Anjo disse aos pastores para não temerem, pois anunciava uma boa-nova que seria de grande alegria para todo o povo. Disse ele, nasceu hoje um Salvador, que é o Cristo Senhor. Eis o sinal: “Encontrareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura”. Ao mesmo tempo uma multidão da milícia celeste se uniu ao Anjo a louvar a Deus: “Glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc II, 8 e sg.).
Envoltos nesta luz, comemoremos o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

sábado, 23 de novembro de 2019


Carta Aberta ao Excelentíssimo Sr. Presidente da Câmara



Prezado Senhor Rodrigo Maia,


Permita-me fazer algumas apreciações e, ao mesmo tempo, demonstrar minha indignação pela maneira como vem sendo conduzida a política brasileira, de modo particular pelas duas casas legislativas, cuja Câmara dos Deputados é presidida pelo senhor.
Como sacerdote no interior do Estado do Rio de Janeiro, no meu contato direto com os paroquianos posso afirmar que as ponderações que farei são compartilhadas por grande parte deles que anelam todo o bem que se possa fazer por esse Brasil, nascido sob o signo da Cruz.
De um fato, estou seguro, a maioria absoluta da população brasileira está desagradada e desaprova a maneira de os nossos deputados e senadores conduzirem o processo de recuperação moral e institucional do País desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro.
Pelo que tenho ouvido, a postura do Parlamento tem decepcionado e muito o público brasileiro, que percebe a má vontade de seus representantes em votar projetos originários do poder executivo, ora desfigurando-os, ora desidratando-os, ora postergando as suas votações.
Desapontamento esse que não atinge apenas questões econômicas, mas sobretudo àquilo que diz respeito à ordem moral e familiar. Sendo a família a “célula mater” da sociedade, com ela esfacelada não haverá ordenação harmônica, estável e duradoura possível na vida social.
Para o magistério tradicional da Igreja não se pode violar o direito fundamental do ordenamento familiar, pois sem ele os desígnios mais altos do bem-estar e a própria sobrevivência da sociedade estariam comprometidos. E a essência familiar é constituída por um homem e uma mulher, e isso foi determinado por Deus ao criá-los, dizendo: crescei e multiplicai-vos e enchei toda Terra.
         Foi uma vitória quase miraculosa o povo brasileiro ter tirado do poder a esquerda que há décadas vinha meticulosamente destruindo os valores morais de nossa sociedade, não só pelo péssimo exemplo que davam, mas também por leis cada vez mais permissivas, tornando-a frágil, degradada e sem qualquer perspectiva de futuro.
Nos últimos anos do PT, tais desvios já vinham se conformando em perseguição religiosa àqueles que por dever de consciência religiosa reagissem contra a introdução de leis sobre homofobia, identidade de gênero, aborto, equiparação do casamento monogâmico entre um homem e uma mulher com as uniões de pessoas do mesmo sexo e adoção de crianças pelos mesmos.
Nesse contexto, foi criado um ambiente favorável ao vício, à delinquência e à corrupção generalizada, que em contrapartida inibia a virtude, a honra e a dignidade da grande maioria dos brasileiros. Com efeito, tudo caminhava para o descalabro e para o caos. Infelizmente, o câncer que carcomia a ordem não foi totalmente extirpado.

Suas metástases ainda seguem fazendo estragos não pequenos nas duas Casas Legislativas, frustrando assim os mais nobres anseios da sociedade. É dever dos governantes exercerem seu poder dentro dos parâmetros da justiça à procura do bem-estar social. Isto, Sr. Deputado, é um princípio universal e tem demonstrado que, quando bem cumprido, traz desenvolvimento, paz e progresso moral e material para as nações.
Caso tal princípio não seja observado, ocorrerá exatamente o contrário, só trará desgraças, atrasos e até convulsões sociais, como afirma Santo Agostinho em sua obra “A Cidade de Deus”, quando as nações violam a Lei de Deus, não existindo céu nem inferno para as mesmas, o prêmio ou castigo será conquistado nesse mundo, como podemos constatar hoje na Venezuela!
Exemplos patéticos foram as ditaduras comunistas e nazistas do século passado, e que ainda perduram neste tão conturbado início deste milênio. Esperamos bem que nessa fase da vida pública brasileira, nossos políticos — muitos deles imbuídos de ideologias ateias e comunistas — não continuem nos conduzindo por essas vias tenebrosas. Estaremos atentos e dispostos a cumprir nosso dever diante do Criador a fim de evitar tal desgraça para nossa Pátria. Disso Vossa Excelência pode estar seguro, pois o povo brasileiro já deu provas concretas de sua determinação e coragem.
Com efeito, os valores morais e civilizatórios advindos do Cristianismo são as bases de uma sociedade sadia. Basta conhecer um pouco da história da civilização ocidental para perceber o quanto a Igreja Católica contribuiu para tirar as nações europeias do verdadeiro caos advindo com a queda do Império Romano em meados do século V.
Ao longo dos séculos, os ensinamentos cristãos foram pouco a pouco transformando os costumes e as leis pagãs, substituindo-as pelos sábios ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Inúmeros frutos atestam a transformação em todos os ramos e atuação do homem, tanto no campo intelectual, quanto no espiritual, assim como na arte, nos costumes, nas leis, na política, na vida familiar, que ninguém pode negar ou subestimar o valor histórico da ação benfazeja da Igreja em todos os setores da vida do homem.
Ninguém tem o direito de destruir esta grande conquista da humanidade, que foi a cristianização dos costumes e das leis, pois retornaríamos ipso facto à barbárie. E o bom senso popular proclama que é exatamente esse o desejo da esquerda para o Brasil, pelo papel de relevância que o nosso País vem ocupando no concerto hodierno das nações. Ao observar as discussões que ora vêm ocorrendo no Senado e na Câmara, pode-se concluir que — infelizmente — nada de relevante vem sendo feito para a construção de nosso futuro, pelo contrário, o boicote é total.
         Volto a afirmar que o fundamento da sociedade é a família. Ela só será bem constituída se for nos moldes cristãos, ou seja, monogâmica e indissolúvel, que é direito dos pais formarem seus filhos dentro da moralidade. Tudo o que fugir disso é inaceitável e fatalmente, cedo ou tarde, nos conduzirá à ruína.
Atualmente são tantos os fatores de degradação que podem colaborar para abalar a família, que é dever imperioso dos legisladores zelarem pela sua fundamental proteção e defesa. Tenham certeza de que não é fazendo concessões aos erros modernos que poderão salvá-la, na verdade, isso só a enfraquecerá mais.
         No preâmbulo de nossa Constituição está dito que mesma foi promulgada sob a proteção de Deus. Sendo assim, as leis devem ser conformes com a Sua santa vontade. Caso contrário não proporcionarão a harmonia, a paz e o progresso almejado por todos.
         Apenas para constar, mais uma observação. A mídia, pelo menos a grande imprensa escrita ou televisiva está cada vez mais desacreditada, porque tem corroborado no sentido de destruir os valores da civilização cristã em nossa sociedade. Felizmente a população ordeira e laboriosa tem tido opções no acesso à informação idôneas e de qualidade, sem o cunho político esquerdista e marxista que domina nas TVs abertas, por meio das redes sociais, e isso foi uma conquista. O Brasil espera que os nossos legisladores não queiram votar leis que possam cercear a liberdade de expressão e o acesso à informação idônea e de qualidade.
         Nascido sob o signo da Cruz, o primeiro ato oficial do Brasil foi a celebração da Santa Missa. Nascido cristão, assim deveremos nos manter numa nação soberana, imponente e varonil. Pedimos a Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, que vele pelo povo brasileiro, e ilumine os nossos governantes a fim de que façam uma administração dentro dos valores morais e cristãos, assegurando para esta grande nação e a este povo ordeiro, laborioso e pacífico um futuro de paz, harmonia e autêntico progresso.

Padre David Francisquini
Cardoso Moreira, 16 de novembro de 2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019


Os reinos e as repúblicas



Padre David Francisquini


Pedras Preciosas
No cenário da criação e da educação escolar, aprende-se que há três reinos dominantes na natureza: mineral, vegetal e animal. Os minerais, desde um simples calhau até o mais esplendoroso diamante, passando pelas pedras semipreciosas e preciosas, são inanimados, não possuem vida.
  Sobre os vegetais, são seres dotados de vida. Estes, com toda as suas mais encantadoras particularidades, de um simples miosótis ou gramínea a um carvalho ou baobá, encontram-se em todos os recantos da terra.
      Por fim, os animais que se subdividem em racionais e irracionais, sendo os primeiros os mais perfeitos da obra da Criação, e os demais não apresentam raciocínio, mas apenas funções secundárias na ordem estabelecida por Deus.
Carvalho
Por sua vez, os seres racionais são dotados de alma e corpo e, por isso mesmo dignos de maior relevância e maravilhamento, pois ao criá-los, Deus os fez à sua imagem e semelhança. Tais predicados determinam que o homem – dotado de razão e provido pelas noções advindas de seu intelecto – é capaz de distinguir o bem do mal, o certo do errado.
     A partir de suas características cognitivas, o homem vai além ao estabelecer sistemas de pensamentos e ideias. Assim procederam e assim ensinaram, por exemplo, São Tomás de Aquino em sua Teologia Dogmática, e Santo Afonso de Ligório na Teologia Moral. Trata-se de um processo comum em todas as áreas do comportamento humano.
            Assim criado, o homem se tornou sujeito a ter ideias e avaliar com clareza e precisão as consequências de suas atitudes e assumir responsabilidades por seus atos. Enquanto os irracionais possuindo apenas um sopro de vida mortal, perecível, deixando de existir com a morte do corpo, é incapaz de tomar decisões, calcular ou assumir consequências de seus atos.
     Com a falta de entendimento, o animal irracional não tem noção de si mesmo. Por mais que pensemos que ele seja livre, na realidade, não o é, pois ao praticar os seus atos ele é impelido apenas por sensações, apetites e pelo instinto natural. Tais atributos podem conduzi-lo a um fim de que ele mesmo ignora, e cujas consequências não poderá nunca medir nem prever.
     Daí se depreende que ele não pode ficar sujeito a uma norma jurídica, uma vez que, por ser irracional, ele não tem como obedecer a uma lei que não seja a mera consequência de seus instintos animais. Mesmo no que diz respeito a essa “lei da natureza”, derivada de seus instintos animais, ele não a conhece racionalmente, estando a ela sujeito como um escravo, incapaz de fugir de seus preceitos.
     Sendo assim, nesse aspecto, o animal não se diferencia de um copo ou de uma cadeira. Ele não é um ser senciente, isto é, um ser com sensações e sentimentos conscientes. Portanto, nunca poderá ser uma pessoa com personalidade jurídica, como é um homem racional, pois nem sabe se existe lei ou não...
    Sabemos que o animal sente dor, frio, fome, mas nada disso poderá nos levar a compará-lo ao homem, seja no quesito de direitos e das leis, seja no tratamento enquanto criaturas que devem estar ao serviço do homem, e não o contrário. Visto ser o homem o detentor do poder de vida e morte dos animais, a ele cabe zelar pelo equilíbrio da vida na terra, e, desta forma, prestar honras a Deus, criador e organizador de todas as hierarquias.
Portanto, o homem não pode extrapolar os desígnios de Deus ao dispor a sua criação. Mas os nossos deputados, talvez depois de julgarem ter já feito tudo pelo bem dos brasileiros, começam a se dar ao luxo de cuidar dos animais, dando a eles um status jurídico. Para o Senador Randolfe Rodrigues, a concessão de status legal aos animais representa “um avanço civilizacional”.  
    Tal disparate é de molde a provocar a reação de parlamentares sensatos, e não alinhados com a plataforma política esquerdista, como tal lei poderá causar sérios problemas como a interferência na cadeia produtiva agrícola, podendo até mesmo chegar a proibir o abate de animais para alimentação.
Plenário do Senado
    Com efeito, em vez de se preocuparem com a aprovação de pautas que almejem o desenvolvimento e progresso do Brasil, com consequente criação de empregos, tais parlamentares vêm com essa proposta absurda, além da perda de tempo e de dinheiro.
     As Escrituras dispõem que Deus Nosso Senhor ao fazer o homem à Sua imagem e semelhança o estabeleceu como síntese de toda criatura, colocando-o no domínio de todas as coisas. Contudo, as cogitações materialistas do espírito hodierno, de modo particular nas repúblicas revolucionárias, costumam burlar da forma de raciocinar alinhada aos valores espirituais ou morais

quinta-feira, 12 de setembro de 2019


Não sabemos o dia nem a hora
*Padre David Francisquini



A vigilância como virtude necessária para a conquista do Reino do Céu está contida na lição do Divino Mestre sobre o chefe de família que não sabe a hora em que virá o ladrão. O fiel cristão deve, pois, estar sempre vigilante em relação aos inimigos que o cercam, pois nunca sabe quem o espreita, nem quando será atacado.

E o inimigo está com frequência nos lugares menos imagináveis. Com efeito, infelizmente, como se tornou comum vê-lo – muitas vezes com naturalidade e indiferença – nos verdadeiros absurdos que acontecem nos templos sagrados, nas celebrações litúrgicas, onde Nosso Senhor é tratado indevidamente na recepção da Eucaristia.

Além da ofensa a Ele, esse estado de espírito displicente acaba por abalar a fé e a devoção na presença real de Jesus Cristo Eucarístico. Temos ainda a brutalidade e o ódio contra o sublime Sacramento instituído por Jesus Cristo, verdadeiras profanações dos lugares santos.

– Não constituiriam um desdobramento sinistro do que neles ocorre no dia a dia? Para avaliarmos a sua gravidade, recorramos rapidamente à explicação dada por Orígenes, um dos grandes teólogos do início do cristianismo, às palavras do Evangelho.

Ele nos ensina que o pai de família representa o entendimento do homem; sua casa, a sua própria alma; e o ladrão, o demônio. Esse inimigo se utiliza de discursos lisonjeiros, eivados de falsidades, mentiras e traições para iludir os corações, perverter-lhes o entendimento, saquear suas energias e abalar suas convicções.
O ladrão vem e mina a casa, pois o pai de família dorme sem o cuidado de guardá-la. Em seguida, mata-o sem resistência, pois o surpreendeu dormindo, em vez de vigilante, que deveria ser a sua atitude habitual. O estado generalizado de indolência e torpor das almas torna o terreno propício a todo tipo de profanação.
Profanação do Santíssimo Sacramento

Circulam pela internet pequenas filmagens com exemplos do que vem ocorrendo em muitas igrejas, ou seja, de pessoas que entram na fila de comunhão, recebem a hóstia na mão e não a consome... Lembro-me a propósito de uma notícia proveniente da histórica cidade de Trento, no norte da Itália, em que um comungante ao receber do celebrante a hóstia na mão, partiu-a e deu metade para seu cachorro que o acompanhava na igreja.  Em outra ocasião, um gato subiu ao altar, na hora da comunhão, e passou a comer as partículas consagradas.

Notícias assim nos deixam estupefatos! Não há por trás de tudo isso uma rota do crime do sacrilégio e da profanação investindo contra o que há de mais sagrado em nossas igrejas, que é o Santíssimo Sacramento? Sacrários são destruídos ou jogados nas ruas com as hóstias; estas são também roubadas, incendiadas, lançadas ao chão ou em rios; vestes e objetos litúrgicos profanados; altares quebrados, imagens destruídas...

Profanação de imagens
Quem estaria por trás dessas manifestações furiosas de ódio contra Aquele que está verdadeiramente presente na Sagrada Eucaristia sob as espécies de pão e vinho? Sem dúvida, satanás, por meio de seus sequazes, pois a fúria é verdadeiramente satânica.

O mesmo ódio que levou Jesus Cristo a ser condenado e conduzido ao alto do Calvário se repete em nossos dias com as profanações dos sacrários de nossas igrejas. O sacrilégio constitui uma cacofonia sinistra que reverbera nas profundezas infernais, pois tanto ódio só pode provir do demônio, o eterno derrotado.
            Pretendo voltar ao assunto.

sábado, 13 de julho de 2019


Crise de fé, crise de costumes

Padre David Francisquini


           
Plínio Correa de Oliveira
            A quebra dos valores morais e religiosos ao longo das últimas décadas vem causando não poucos estragos em todos os setores da sociedade, levando-nos a exprobrar em diversas ocasiões o comportamento inescrupuloso de muitos de nossos representantes que ocupam cargos públicos. 

            Como já expliquei em outras ocasiões e volto a insistir, a raiz da questão encontra-se na crise de fé que atinge todos os homens deste início de século, na base da qual estão o orgulho e a sensualidade, como apontou o pensador católico Plinio Corrêa de Oliveira.
            Como essa crise tem como campo de ação o próprio homem com os seus defeitos e vícios decorrentes do pecado original, os quais vêm sendo alimentados artificialmente há mais de meio milênio por meios revolucionários, hoje ela atingiu um clímax. A essa situação podem ser aplicadas as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo quando se referiu ao profeta Isaías:
            "Este povo honra-me com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me presta culto; a doutrina que ensina são preceitos humanos" (Mt. 5. 5-7). E o divino Mestre chama esse povo de hipócrita exatamente por aparentar em seu coração uma coisa e fazer o contrário. Finge prestar culto a Deus, mas na verdade se ocupa das pequenas vantagens terrenas. 
            Ao se jactar de cultuar a Deus, essas pessoas na verdade se encontram bem longe d'Ele, pois seus corações não são retos e não praticam o que é justo diante de Deus. Honram pela boca, exigem de Nosso Senhor sinais e milagres, mas não querem reconhecer a sua divindade, nem recebê-Lo. Ademais, procuram armar traições e ciladas para poder apanhá-Lo em contradição.
            Mas Nosso Senhor desmascarou os fariseus mostrando-lhes o que se passava em seus corações. O que mancha o homem são os homicídios, as glutonarias, os adultérios, a fornicação, as rixas e as contendas, isso é o que mancha o homem; não o que entra bela boca, mas o que sai da boca.
            Não é bem a isso que assistimos nos parlamentos modernos de muitas nações, mais particularmente o nosso parlamento, do qual podemos falar como testemunhas? O Brasil, afundado tanto moral quanto economicamente por malversação do dinheiro público, viveu – talvez anestesiado – uma crise sem precedentes até há pouco.  
            É difícil imaginar o nível de degradação moral e religiosa que chegou o nosso Brasil. Creio ter sido obra de uma graça enorme o fato de ele ter acordado dessa letargia e encher-se de indignação diante do comportamento indecoroso, desleal, mentiroso e túmido de malefícios, ódio e rancor de nossos governantes e ir para as ruas exigindo justiça.
            Ainda hoje subsistem alguns remanescentes que nos deixam pasmos em alguns debates ou inquirições no nosso parlamento, como as sabatinas que muitos deputados e senadores fizeram recentemente ao Ministro Sergio Moro, nas quais faltou gravidade e decoro por parte dos inquiridores que se prevaleceram da chamada imunidade parlamentar para provocar, humilhar e ofender alguém que luta por valores morais.
            As ideias revolucionárias e contestatárias proliferaram como pragas e a elas se aplica o que o profeta Isaías vaticinou:  “A vinha do Senhor dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá a planta, na qual ele tinha as suas delícias;  esperei que praticassem a retidão, e eis que há só iniquidade, e que praticasse a justiça, e eis que somente se ouvem clamores” (Is. V 7).
São Tomas de Aquino
            E mais adiante Ele afirma, no versículo 29: "Ai de vós que ao mal chamais bem e ao bem mal, que tomais as trevas por luz e a luz por trevas, que tendo o amargo por doce, e o doce por amargo. Ai de vós que sois sábios aos vossos olhos e segundo vós mesmos, prudentes... Vós que justificais o ímpio pelas dádivas, e aos justos tirais o seu direito”.
            Quem é prudente procura edificar sua casa sobre a rocha firme, que vai enfrentar as tempestades, o transbordamento dos rios e a impetuosidade dos ventos, como alerta Nosso Senhor. O insensato edifica sua casa na areia, “cai a chuva, transbordam os rios, sopram os ventos e investem contra aquela casa, e ela cai e sendo grande a sua ruína” (Mt. X, 27).
            É o que o Brasil viveu nesse longo período de governos da esquerda, que aparelharam a máquina do Estado a serviço de sua ideologia.
            É elucidativo quando Santo Tomás de Aquino diz ter sido o diabo quem edificou sua casa por meio de homens ímpios, na areia. Isto é, na inconstância e na infidelidade de homens carnais, chamados de areia devido à sua esterilidade e por não estarem unidos entre si, mas divididos por uma multidão de opiniões.
            A chuva, diz ele, é o ensinamento que rega o homem e as nuvens são de onde sai a chuva. Alguns são despertados pelo Espírito Santo, são os profetas e os apóstolos; os outros pelo espírito do diabo, são os hereges.
            Os bons ventos são os espíritos de diversas virtudes que operam de maneira invisível no sentido dos homens e os inclinam a operar o bem. Já os maus ventos são os espíritos imundos que levam os homens a operar o mal; os bons rios são os evangelistas e mestres do povo; os rios maus são os homens cheios de espírito imundo e instruídos de verbosidade, das profundezas de cujos corações nascem os erros e as mentiras.
            O que se passa no Brasil ocorre mais ou menos em todas as nações, que se encontram na mesma encruzilhada.  Por outro lado, também há uma minoria grande que reage para colocar o Brasil nos trilhos. No fundo dos corações nasce uma esperança, uma certeza da vitória dos bons, porque existe a promessa de Nosso Senhor de que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja.


sábado, 15 de junho de 2019


Reconciliação impossível

Padre David Francisquini

São Tomás de Aquino ensina que nada chega à inteligência humana sem antes passar pelos sentidos. Com efeito, a criação reflete as infinitas perfeições de Deus. Pela contemplação devemos procurar compreender as perfeições postas em cada coisa criada. No artigo anterior eu havia dado o exemplo do que uma águia, por tudo aquilo que simboliza, é capaz de nos ensinar.
Hoje, com mais um texto das Escrituras, cuja linguagem vem sempre revestida de múltiplos e ricos significados e com as luzes do Espírito Santo, espero retirar alguns ensinamentos ao mesmo tempo nobres e benfazejos que possam ser úteis a todos nós. Nobres, pelo fato de saírem dos lábios divinos do Salvador; benfazejos, porque trazem expressiva lição para a vida dos homens.
O texto escolhido é o que segue: Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis aos porcos as vossas pérolas, para que não suceda que eles as calquem com os seus pés, voltando-se contra vós, e vos dilacerem” (Mt 3. 6).
Se Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida, não há outro meio senão imitar os seus divinos exemplos e pôr os nossos pés nas suas pegadas cheias de luz e beleza. Se somos verdadeiramente cristãos, devemos ser imitadores e seguidores de Cristo.
O sacerdote tem uma vocação sublime neste Vale de Lágrimas, não podendo subtrair – e muito menos ocultar – a missão salvadora de Cristo, o ideal a ser seguido. Quando Jesus nos ensina o mandamento de amar os inimigos – perseguidores e caluniadores – não nos aconselha a lhes comunicar os bens espirituais indistintamente no que se refere à fé, pois eles são indignos.
Padre Pio dando a Sagrada Comunhão aos recém-casados
Na verdade, Deus concede aos justos e aos injustos os benefícios materiais e carnais, mas não graças espirituais aos ímpios, a não ser que se arrependam e se ponham em disposição para isso. Ademais, Nosso Senhor ensinou também que não se deve colocar vinho novo em odres velhos. Logo, enganam-se aqueles que querem a todo custo aproximar da mesa eucarística os divorciados e recasados sem exigir deles mudança de vida.
Encontram-se na verdade revelada, portanto com fonte nas Escrituras Sagradas, ensinamentos que contrariam cabalmente a posição de certas autoridades eclesiásticas no sentido de deixar aproximar da mesa eucarística pessoas que não se encontram em estado de graça e na amizade com Deus.
São Paulo, em carta aos Coríntios, aconselha cada um a examinar-se a si mesmo antes de se aproximar dessa mesa, pois se o fizer indignamente tornar-se-á réu do Corpo e do Sangue do Senhor.
Sobre o texto bíblico referido acima, costuma-se indagar o significado das palavras santos, cães, pérolas e porcos. Santo é aquilo que não pode ser corrompido e aquele que tentar corromper se torna ímpio. Pérolas são todos os bens espirituais de maior estima. Ainda que possa parecer uma mesma coisa, chama-se de santo o que não se deve corromper, e de pérola aquilo que não se deve desprezar, segundo Santo Agostinho.
As verdades são ministradas para aqueles que têm reta intenção, entendimento e percebem que os ensinamentos revelados são nobres. No hino da festa de Corpus Christi, afirma o Doutor Angélico: “Eis o pão que os anjos comem, transformado em pão do homem; os filhos O consomem: não seja lançado aos cães”.
Os cães são aqueles que voltam ao vômito, isto é, que ensinando erros condenados pelo ensinamento revelado, aconselham, permitem e por vezes fazem questão de introduzir pessoas indignas na mesa eucarística e na frequência dos outros sacramentos. Os porcos são os que ainda não se voltaram para a verdade revelada, mas estão habituados à lama dos vícios, dos prazeres, da ganância. Ao dizer pérolas, algo de muito sublime e nobre, são aqueles que, por falta de retidão, não acatam nem apreciam o seu valor e nobreza, pois não têm fé e não seguem a retidão natural.
Tanto os cães quanto os porcos não têm fé, e desejam continuar na vida avessa à Lei divina, procurando justificá-la. Não podemos conciliar a verdade e o erro, a virtude e o vício, a luz e as trevas. Santo Agostinho afirma "que se alguém não pode compreender por causa da sua condição sórdida, devemos limpá-lo na medida do possível, seja por palavras, seja por obras”.
Ao panorama político, religioso, social e econômico do cenário brasileiro pode se aplicar a parábola dos cães e dos porcos. Do mesmo modo, pela malícia e perversidade com que a esquerda católica vem disseminando ideias de um suposto bem-estar socialista, tentando apagar na mentalidade dos fiéis a noção de erro e de verdade por meio de um relativismo religioso.
O plano puramente social tomou lugar preeminente no diz respeito à fé e à religião. O endurecimento dos corações dos católicos esquerdistas persiste em querer levar o Brasil a renegar as tradições hauridas de seus missionários e colonizadores. Muitas pessoas se negam a abrir seus corações para as verdades sobrenaturais e preferem não ouvir. Por sua ingratidão e insensibilidade, repugna-lhes ouvir palavras de verdade, tornando-se ávidas de ouvir fábulas engenhosas e mentiras propostas pelo ideário comuno-socialista.
Tal insensibilidade ao ouvir os apelos de Fátima – a Mãe de Deus alertando que a Rússia espalharia os seus erros pelo mundo – é proveniente da malícia da vontade, da culpa do próprio arbítrio, pois os homens fecharam os ouvidos ao apelo celestial para a oração e a penitência.
         Ao comentar a dureza de coração dos homens, São João Crisóstomo diz que eles seriam imediatamente curados, caso se convertessem. Não são outras as palavras de Nossa Senhora em Fátima ao pedir oração, penitência e emenda de vida. Não devem aproximar-se da mesa eucarística aqueles que não têm condições de receber dignamente os sacramentos.

sábado, 18 de maio de 2019


A águia, o urubu e a promessa de Fátima

Pe. David Francisquini

Ao contemplar certos aspectos da natureza, o homem muitas vezes fica tão tomado de admiração que sai de seu microcosmo para remontar a Deus, num verdadeiro ato de louvor ao Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. A Escritura Sagrada costuma mencionar com frequência a águia como a ave forte e veloz, que vive entre o céu e a terra. Contemplativa e guerreira, ela simboliza valores próprios a ensinar os homens a viver nesse vale de lágrimas com os olhos postos nas alturas.
Conhecida como a rainha das aves, a águia é combativa e majestosa, voa alto, muito alto, com a força própria de sua natureza nobre e, portanto, cheia de direitos. Se ela conquista os mais altos píncaros é graças à sua natureza, pois possui todas as prerrogativas de verdadeira rainha. Para indicar uma nação aguerrida que às vezes vem de longe para conquistar outros povos e submetê-los ao seu arbítrio, o Deuteronômio (28, 49) a compara a uma águia que irá devorar todos os frutos dos estados a serem subjugados. Não sem razão, os povos afeitos à luta costumam tomar por símbolo a águia.
No espírito do livro bíblico citado acima, as águias não se compadecem de suas presas. Assim acontecerá com toda a geração perversa e adúltera que abandona a Lei de Deus, passando a viver apenas para a satisfação de seus caprichos. De uma sociedade forjada por pessoas desse naipe não ficará pedra sobre pedra, como disse Nosso Senhor a respeito do povo judeu. Quais presas fáceis, elas poderão saltar como cabritos, mas a águia se apoderará delas para o seu sustento e o de seus filhotes. 
Até a ira de Deus tem elegância, majestade, agilidade e nobreza, por isso ela é santa. Para estabelecer a ordem no mundo que Lhe virou as costas, Deus se serviu de sua Mãe, em Fátima, para anunciar que uma nação predadora e má – a Rússia – espalharia seus erros pelo mundo. Ela é a nação que vem de longe para tomar com a precipitação não da águia, mas de um abutre, as carnes apodrecidas das nações pecadoras.
Uma particularidade dos urubus é que eles parecem não fazer muita força para voar, enquanto o apetite só faz aumentar a ousadia deles de pularem sobre a carniça. Assim é a ave de mau agouro russa: enquanto não promove a guerra cruenta, prepara-se para ela iludindo nações com promessas fátuas, e, para anestesiá-las mais eficazmente, utiliza-se da mídia colaboracionista, das cátedras de colégios e universidades a fim de impor a sua revolução cultural e confiscar todos os seus frutos. Como os urubus para se defender das turbulências provocadas pelas tempestades são capazes de voar acima das nuvens e aguardar o momento oportuno para atacar, assim a Rússia – com astúcia e magnetismo viperinos – enfrenta todos os obstáculos que encontra pela frente, ora pela mentira, ora por ameaças, ora pela guerra, a fim de tirar a vida da presa escolhida para depois comê-la e digeri-la.
É de modo particular assustadora a infiltração das ideias comunistas nos meios religiosos, na hierarquia eclesiástica, ditando as suas máximas até nos mais altos postos da Santa Igreja, a fim de fazer prevalecer as suas falácias sopradas pelos espíritos malignos para corromper as almas. Para enfrentar inimigo tão ágil e tão poderoso, é preciso ter ascese constante, o que infelizmente não presenciamos ao nosso derredor. Nem mesmo as pessoas sagradas – já anestesiadas – se interessam mais em alertar as suas ovelhas para o perigo, pois aqui se aplica o ensinamento divino de que os filhos das trevas são mais sagazes do que os filhos da luz.
Os maus costumam ter a agudeza de espírito e, na espreita, esperar o momento e a ocasião para avançar para se apoderarem, por exemplo, de um alto posto na sociedade civil ou religiosa para impor as suas ideias e fazer a sua propaganda nefasta. Com efeito, Nossa Senhora advertiu em Fátima que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, que várias nações seriam aniquiladas caso os homens não fizessem oração e penitência. Onde está a oração? Onde está a penitência?
Dr. Plinio Corrêa de Oliveira considerou na 8ª. Estação da Via Sacra escrita por ele – Jesus consola as filhas de Jerusalém – que naquele momento trágico não faltaram almas boas que percebiam a enormidade do pecado que se praticava e temiam a justiça divina. “Não presenciamos nós algum pecado assim? Onde estão e o que fazem os filhos da Santa Igreja neste momento que é trágico como trágica foi a Paixão, momento em que uma humanidade inteira está escolhendo por Cristo ou contra Cristo? Quantos míopes que preferem não ver nem pressentir a realidade que lhes entra olhos adentro!”