quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Ninguém pode servir a dois senhores
Pe. David Francisquini


A avassaladora demolição atual das instituições e dos usos e costumes vigentes até há pouco escancaram para o leitor uma crise sem precedentes, ampla e universal que atinge todos os setores da vida social. Ainda que para efeito didático dessas linhas, ouso dar-lhe um nome: apostasia. Por sua natureza, tal crise se reduz a um sistema doutrinário que procura conduzir o desregramento das paixões ao seu mais alto grau.
 Basta considerarmos a tão propalada ideologia de gênero, inserida na revolução cultural, que surge para demolir nos seus aspectos mais transcendentes o próprio ser, ao negar que nascemos homem e mulher para propagação da espécie. Essa nova ideologia parece ter saído dos antros infernais, pois traz em seu bojo um verdadeiro ódio a Deus, o sumo bem, Autor da diversidade das criaturas e de sua hierarquização.
Ao criar, Deus manifestou sua suma bondade e sabedoria, pois quis comunicar suas perfeições às criaturas para que elas fossem um reflexo d’Ele, e ao refleti-Lo Ele pudesse ser mais conhecido e contemplado pelos homens enquanto Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, como nós rezamos no Credo. Neste movimento de conhecer e amar nós teríamos todas as predisposições para bem servi-Lo.
Historicamente isso aconteceu. Como nos ensinou o Professor Plinio Corrêa de Oliveira, “a Cristandade medieval não foi uma ordem qualquer, possível como seriam possíveis muitas outras ordens. Foi a realização, nas circunstâncias inerentes aos tempos e aos lugares, da única ordem verdadeira entre os homens, ou seja, a civilização cristã”. Com toda razão, Leão XIII pôde afirmar que naquele tempo a filosofia do Evangelho governava os Estados.
Para os incréus, basta contemplar tudo que a Cristandade foi capaz de fazer: as catedrais, os castelos, as universidades, os hospitais, enfim tudo aquilo que ainda atrai os viajantes à Europa. A vida terrena para o homem era uma espécie de antecâmara do céu. E não foi por outro motivo que o demônio desencadeou uma Revolução a fim de destruir até os fundamentos a ordem por excelência que reinava naquela doce primavera de fé.
Odiar em princípio toda e qualquer desigualdade é colocar-se filosoficamente contra os elementos que há entre a criatura e o Criador, e, portanto, representa um ódio metafísico contra o próprio Deus. Infelizmente, foi o que se passou com a decadência da Idade Média, com o advento de Lutero e sua revolução protestante, com a revolução francesa, com a revolução comunista que agora, nos seus estertores, parece caminhar para o seu trágico fim.
Com efeito, a fúria que se manifesta contra os símbolos de nossa Redenção, contra o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Mãe Santíssima se concretiza em peças blasfemas como "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", exibido em unidades do Serviço Social do Comércio – SESC com o patrocínio de órgãos como Itaú Cultural e Instituto Tomie Ohtake. Outro exemplo foi a exposição denominada “Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira”, patrocinada pelo Banco Santander.
Tais iniciativas vão muito além de simples quedas a que a fragilidade humana está sujeita depois do pecado original, mas estão revestidas de um ódio que gera erros doutrinários, levando até mesmo à profissão consciente e explícita de princípios contrários à lei moral e à doutrina revelada, constituindo um pecado contra o Espírito Santo.
Todos nós assistimos a erosão da família na sociedade civil, e até mesmo dentro da Igreja Católica, que deveria ser a sua defensora natural e espiritual, mas que, em vez disso, em reuniões e encontros católicos abre espaço para adúlteros e homossexuais, administra o sacramento da Comunhão e da Confissão para pecadores sem o firme propósito de emenda de vida.
           
Outro acontecimento escandaloso foi a comemoração dos 500 anos da revolução protestante de Lutero, que pregou a supressão do celibato eclesiástico e a introdução do divórcio, além de ter sido responsável pela decadência moral que atinge o paroxismo de nossos dias. Das tendências, dos estados de alma, dos imponderáveis protestantes surgiram outras revoluções, como a revolução francesa, a revolução comunista e a revolução estruturalista.  
Creio ser do Pe. Leonel Franca a afirmação de que a sociedade moderna ataca tudo o que a sustenta e sustenta tudo o que a demole. O destaque dado nos meios católicos aos festejos da revolução luterana percorreu todos os níveis da hierarquia eclesiástica. Segundo informa boletim da Unisinos, “Lutero no seu tempo julgado como herético e excomungado pelos papas, neste ano será comemorado pela filatelia vaticana com um selo que recorda os 500 anos da Reforma Protestante”... 
            Diante da tragédia de nossos dias, recordo aqui um ensinamento de Pio XII:
"Embora os filhos do Século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não se lhes estendessem mão amiga. Há os que parecem querer caminhar de acordo com os nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniquidade. .... Como se absolutamente não estivesse escrito que não se pode servir a dois senhores. São eles muito mais perigosos certamente mais funestos do que os inimigos declarados”.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

“Ela esmagará a tua cabeça”
Pe. David Francisquini
          
A razão iluminada pela fé nos dá tal visão da ordem criada, que a simples razão jamais poderia abarcar. A fé confere equidade e inteligência que excedem tudo o que é meramente natural.
Não é sem sentido que a Virgem de Fátima tenha aparecido num contexto em que os homens se afastavam dos Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja para buscar desenfreadamente o prazer, o dinheiro e a vanglória.
Muitos estudiosos afirmam que o abandono de Deus pelos homens trouxe como consequência a I e a II Guerras Mundiais.
A Virgem de Fátima disse à Irmã Lúcia – uma das videntes – que não mais podia segurar o braço justiceiro de seu Divino Filho, prestes a se abater sobre a Terra por causa dos pecados dos homens.
       No centenário da última aparição de Virgem de Fátima – que ocorre hoje, 13 de outubro de 2017 –, vale a pena realçar a história das aparições. A preocupação dos pastorinhos em agradar a Deus e converter os pecadores é uma das coisas mais empolgantes que possa haver.
Milagre do Sol, Fátima 1917
Das seis aparições, a última foi a mais impressionante, pois com ela Nossa Senhora queria mostrar a veracidade das demais. Deu-se então o Milagre do Sol, presenciado pelas 70 mil pessoas reunidas em Fátima e por muitas outras de lugares mais distantes. Ele foi tão portentoso, que nem sequer os inimigos da Igreja conseguiram empaná-lo ou ignorá-lo.
As aparições de Nossa Senhora em Fátima aconteceram quase no final da I Grande Guerra e por ocasião da revolução bolchevista na Rússia. A Mãe de Deus admoestava: caso os homens não atendessem aos seus pedidos de conversão, reparação e penitência, a Rússia espalharia seus erros pelo mundo.
Mas ficou claro que desses erros não ficaria imune sequer a Santa Igreja, bastando para isso considerar a imensa infiltração comunista nos meios católicos do mundo inteiro e sua nefasta influência sobre a sociedade temporal através da Teologia da Libertação.
O processo revolucionário desencadeado no final da Idade Média atingiu o paroxismo em nossos dias com a eclosão de outros erros e correntes propugnando a ideologia de gênero, a pedofilia, a zoofilia, o falso casamento entre pessoas do mesmo sexo e outras enormidades. Tudo isso ao lado de uma infernal ofensiva de blasfêmias e sacrilégios de que os noticiários estão prenhes.
O que surpreende e deixa a todos perplexos é o silêncio enigmático de nossa estrutura eclesiástica. Como estão distantes os tempos em que Santo Antônio Maria Claret e vários outros santos se opuseram de viseira erguida às arremetidas dos inimigos da Igreja e da Cristandade!
Parece haver um desígnio satânico de implantar na Terra um estado de coisas que fere e transtorna a boa ordenação colocada por Deus. São Luís Maria Grignion de Montfort, no Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, disse que o demônio haveria de armar grandes ciladas ao calcanhar desta mulher misteriosa, e que haveria grandes inimizades entre a bendita posteridade de Maria e a raça maldita de Satanás.
São Luís Maria Grignion de Montfort
Afirma ainda o santo que se trata de uma inimizade toda divina, a única de que Deus é autor: “Os combates e as perseguições que os filhos e raça de Belial farão à raça de vossa mãe Santíssima, só servirão para mais bem fazer resplandecer o poder de vossa graça, a coragem da virtude de vossos servos e autoridade de vossa mãe, pois que lhes destes, desde o começo do mundo a missão de esmagar esse soberbo pela humildade de seu coração e do seu calcanhar: ipsa conteret caput tuum."
            Um lugarejo desconhecido como Fátima tornou-se um enorme lugar de peregrinação, oração, penitência e milagres. Pessoas do mundo inteiro vão rezar ali pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria e pedir a própria conversão. Animados pelas promessas de Maria, a confiança em sua vitória esmagadora se acende em nós!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Ave, cheia de graça!

Padre David Francisquini (*)

A gravíssima crise moral que aflige nossa sociedade está refletida nos falsos prazeres que a vida moderna oferece e em busca dos quais correm sôfregas as multidões. Nem mesmo os tementes a Deus estão imunes aos efeitos dessa crise, que desvia do reto caminho que conduz ao Bem supremo e à felicidade eterna.


A atração pelos prazeres desordenados decorre do pecado original, que tornou nossos primeiros pais e toda a sua descendência sujeitos ao pecado, à doença e à morte.


A única exceção foi a Santíssima Virgem, escolhida para ser a Mãe de Deus. Nascida sem culpa original, conforme o atestaram o Anjo e Santa Isabel — “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo” e “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre”, o demônio nunca teve qualquer poder sobre Ela. Antes, pelo contrário, diante de Nossa Senhora ele é um eterno derrotado. É o que se comprova ao longo da História.


Na sua luta contra os albigenses radicados no sul da França, São Domingos de Gusmão se deparou com almas tão obcecadas e afastadas de Deus e da verdadeira Religião que, por orientação expressa de Maria Santíssima, começou a difusão da devoção ao Santo Rosário, e só assim se extirpou a heresia albigense (ou cátara) daquela região.


Nas batalhas de Belgrado (1456), Lepanto (1571) e Viena (1683), foi ainda Nossa Senhora quem deu a vitória às hostes católicas contra as insidiosas arremetidas dos sequazes de Maomé. E hoje, diante de uma Europa invadida por muçulmanos de todos os quadrantes — o que só foi possível pelo concurso de suas próprias autoridades civis e religiosas —, a salvação está novamente n’Aquela que é “mais terrível que um exército em ordem de batalha”.
Basta a humanidade se afastar da Mãe de Deus — levada talvez pelo falso temor de que a devoção a Ela poderia diminuir em algo Jesus Cristo, ou ainda para não desagradar a algum protestante — para que tudo comece a minguar.


Qual arca salvadora, prevendo o que ia se passar no mundo nesses últimos 100 anos, Nossa Senhora pediu oração, penitência e emenda de vida, bem como a consagração da Rússia ao Seu Imaculado Coração. Infelizmente a humanidade não correspondeu, e por isso está sendo assolada por toda sorte de calamidades, físicas de morais.



No entanto, além desses pedidos e da previsão de castigos, caso os homens não se convertessem, a Santíssima Virgem também prometeu o triunfo de Seu Imaculado Coração.





sexta-feira, 14 de julho de 2017

Há 100 anos, uma advertência vinda do Céu
Pe. David Francisquini

      Dada a abrangência das revelações feitas por Nossa Senhora em Fátima, apontando para uma crise sem precedentes na História, seus devotos — de modo particular aqueles que se dedicam a propagar a mensagem revelada — costumam deparar-se com problemas de difícil solução. Por exemplo, hoje, dia 13 de julho de 2017, faz 100 anos, em números redondos, que a Mãe de Deus se manifestou sobre os erros da Rússia, a expansão do comunismo e a perda da fé com a consequente perda das almas.
            O que podemos notar no nosso cotidiano é que a crise que nos atinge não é decorrência apenas das fraquezas e debilidades próprias à natureza humana em face à virtude e ao cumprimento dos Mandamentos. Ela vai muito além dessas contingências, envolvendo fatores psicológicos e de almas que tocam diretamente na fé. Nesse campo, o demônio passou a exercer um poder descomunal sobre as almas, ao erguer barreiras à ação apostólica no sentido de cumprir os preceitos de Nosso Senhor Jesus Cristo, consubstanciados nos Santos Evangelhos.
            Como ensina o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no livro Revolução e Contra-Revolução, há um endurecimento paulatino e metódico que entra como que por osmose no espírito humano e se propaga imperceptível e sutilmente com a força da expansão dos gases. Trata-se de um estado de espírito que se revela nos modos de ser, nos ambientes e costumes que modelam as mentalidades. Até as crianças são afetadas por este processo dominante que as faz perder muito cedo a inocência, pois tudo que as rodeia vem carregado de uma febricitação e uma eletricidade próprias às cidades modernas e as atinge ainda sem o uso completo da razão.
            Com efeito, por causa desse estresse social, somado às velocidades siderais dos meios de comunicação, os ambientes frequentados pelas crianças — até mesmo o familiar, onde elas são educadas e formadas para mais tarde se integrarem à sociedade — são atingidos por esse processo. Influenciadas assim por tendências desordenadas, elas crescem rumo a uma causa comum revolucionária, avessas à boa ordem das coisas criadas e desejadas por Deus, em oposição, portanto, ao que sempre foi ensinado pela Santa Igreja.
Parece entrar nisso um visgo do demônio, que conduz à desordem e ao caos. A essa situação se pode aplicar esta sábia e perspicaz observação do grande educador São João Bosco: como era possível que dois jovens até então desconhecidos um do outro se encontrassem durante o primeiro recreio e logo se unissem para formar um bloco de crianças ruins?
            Enquanto as crianças boas admiravam Dom Bosco [representação ao lado] e queriam ouvi-lo, observar os Mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, fazer apostolado da boa causa, as más, sempre em pequenas rodas, pareciam conspirar e fazer o contrário do que se ensinava. Não se misturavam com as demais, eram afoitas, desobedientes, impuras, não aplicadas, indisciplinadas e pouco afeitas à oração; numa palavra, revolucionárias, conaturais com as coisas do mundo.
            Tais crianças, quando um superior começa a explicar algo que não lhes causa interesse imediato, tentam distrair todas as demais. Com celulares, internet, whatsApp, vivem num frenesi de individualismo, de egoísmo, portadores talvez de uma carga negativa ainda maior de eletricidade que o mal carrega consigo. Deus e a Religião não lhes dizem nada, não exercem influência alguma em seus espíritos, hábitos e costumes.
            A vida delas consiste numa correria sem fim para seguir seus instintos desordenados, diria anarquistas. O desenlace do passado com o presente se dá num clima de verdadeira guerra ideológica revolucionária, na qual ocorre uma ruptura temperamental ou psicológica com vistas a criar um homem novo diametralmente oposto às tradições e à civilização.
            Para completar o quadro, surgem as leis feitas, ora pelos legisladores, ora pelo Judiciário, ora por decretos. Afinal, como afirmou Sêneca, há crimes autorizados por leis e consultas plebiscitárias. Elas vão eliminando certos padrões da cultura, cuja base era o Decálogo, para dar maior vazão às paixões humanas desordenadas através de uma sexualidade desbragada, do homossexualismo, do aborto, a eutanásia e da ideologia de gênero.
            As crianças de hoje não gostam de pensar, como era hábito dos pequenos pastores que receberam a mensagem de Nossa Senhora em Fátima. Jacinta e Francisco viviam na reflexão e na oração, e por isso se tornaram santos. O dia de hoje, 13 de julho de 2017, se reveste de um significado muito profundo e alentador. Enquanto de um lado a celeste Mensageira descreve a crise de nossos dias, a perda das almas e a expansão dos erros da Rússia, de outro lado aponta o triunfo do seu Imaculado Coração sobre esse multissecular processo revolucionário endurecedor das consciências e dos corações, aniquilador da fé e da avidez pelo sublime.
            Devido à expansão militar do regime bolchevista em numerosos países, os católicos ficaram dispersos, ignorados, perseguidos, martirizados, obrigados a trabalhar em campos de concentração. Enquanto isso, os templos católicos estavam entregues aos mancomunados com o regime e as ideias da “Teologia da Libertação”, em voga em nossos dias no vasto setor da Igreja que abraçou o mundo moderno, os padres ditos progressistas. Entretanto, o que vale mais, a Fé ou templo material? Se Nossa Senhora fala da perda da Fé e da expansão dos erros da Rússia, Ela manifesta que a Fé é superior a qualquer coisa material, pois nos liga à Igreja verdadeira que vem dos tempos apostólicos, como diz Santo Atanásio:

            “Portanto, quem perdeu mais, ou quem possui mais, o que retém um lugar, ou o que retém a Fé? O lugar certamente é bom, suposto que ali se pregue a Fé dos apóstolos, é santo, se ali habita o Santo. Vós sois os ditosos que pela Fé permaneceis dentro da Igreja, descansais nos fundamentos da fé, e gozais da totalidade da Fé, que permanece inabalável. Por tradição apostólica chegou até vós, e muito frequentemente um ódio nefasto quis destruí-la, mas sem resultado; ao contrário, esses mesmos conteúdos da Fé que eles quiseram destruir, os destruíram. [...] Portanto, ninguém prevalecerá contra vossa Fé, meus queridos irmãos, e se em algum momento Deus vos devolver os templos, será necessário o mesmo convencimento: a Fé é mais importante que os templos.”

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Antes que seja demasiadamente tarde

Pe. David Francisquini

No dia 13 de maio último, comemoramos o centenário da primeira aparição de Nossa Senhora de Fátima aos três pastorinhos. O leitor poderá indagar se diante de tão marcante acontecimento da História da Igreja – certamente a mais importante das aparições da Virgem Maria ao mundo – os homens atenderam ou não aos pedidos da celeste mensageira.
Para responder a essa premente pergunta, importa recordar que a Mãe de Deus veio pedir aos homens oração, penitência, mortificação e mudança de vida, isto é, renúncia à impiedade e à corrupção dos costumes. E também que cressem e professassem a doutrina e a Lei de Deus consubstanciada nos Dez Mandamentos.
A Rainha do Céu e da Terra pediu ainda que se rezasse diariamente o terço e se fizesse a comunhão reparadora dos cinco primeiros sábados (a qual consiste em se confessar com a intenção de reparar o Coração Imaculado de Maria, comungar e passar um quarto de hora meditando sobre os mistérios do Santo Rosário).
Por fim, de maneira imperiosa, pediu a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração, a ser feita pelas autoridades competentes, pois do contrário essa nação espalharia seus erros pelo mundo. Teria esse pedido – como os outros sugeridos pela Mãe de Deus – sido atendido pelos homens?
– Infelizmente não! Poucos foram os que rezaram, e menos ainda os que se penitenciaram, se converteram e mudaram de vida. O que não deixa de ser um reflexo do não atendimento do pedido de consagração da Rússia.

*   *   *
1917-2017. Cem anos da aparição de Nossa Senhora em Fátima, Portugal. E também cem anos do bolchevismo na Rússia, o qual foi, e continua sendo, um flagelo para o mundo, que ele descristianiza através da Revolução gnóstica e igualitária. A crise sem precedentes que assola a Venezuela e ameaça o Brasil não é alheia aos erros espalhados pela Rússia.
Como Mãe de misericórdia, a Rainha dos Céus aparece aos pastorinhos, apresentando os meios para a conversão e mudança de vida. Onde está a conversão? Onde está a penitência? Cumpre lembrar que as aparições de Fátima aconteceram num momento importante do processo revolucionário, e mesmo se os homens não atendessem aos pedidos de Nossa Senhora, como mãe bondosa Ela prometeu: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.
Plinio Corrêa de Oliveira comenta que ao abandonarem os homens a velha tradição medieval, eles passaram a ter como ideal de vida não mais a Igreja e seus mandamentos, mas “o Humanismo e a Renascença, que procuraram relegar a Igreja, o sobrenatural e os valores morais da religião a um segundo plano”.
No campo social – continua o autor de Revolução e Contra-Revolução – “a introdução do ideal de desestabilizar a sociedade, levando ao caos, por meio da luta de classe e da violência e a ter hábitos tribais, estruturando-a numa ‘síntese ilusória’ entre o auge da liberdade individual e do coletivismo consentido, na qual este último acaba por devorar a liberdade".
E conclui dizendo que, "segundo tal coletivismo, os vários ‘eus’ ou as pessoas individuais, com sua inteligência, sua vontade e sua sensibilidade, e consequentemente com os seus modos de ser característicos e conflitantes, se fundem, se dissolvem na personalidade coletiva da tribo geradora de um pensar, de um querer, de um estilo de ser densamente comuns".
Propriamente, é a negação da tradição e de todos os valores morais, religiosos, éticos e culturais, com vistas à implantação da anarquia na sociedade.
Daí a importância de Fátima e de sua mensagem para esmagar esse multissecular processo demolidor chamado Revolução, nascido no fim da Idade Média de uma crise de fé e moral sem precedentes na História. Nossa Senhora veio propor os remédios para liquidá-lo.

Remédios bondosamente oferecidos, mas dos quais os homens vêm se recusando a fazer uso. O que faz entrever um fim análogo ao daqueles doentes que se negam a tomar os remédios que seus médicos lhes prescrevem...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Por que Jesus Cristo ressuscitou?


Em alguma medida, muitos dos conhecimentos que nos são transmitidos pela natureza podem explicar o mistério da ressurreição da carne. Por exemplo, o nascer e o pôr do sol; o pintainho que sai do ovo; a crisálida — uma imagem do homem no túmulo — onde a borboleta atinge os seus dias antes de se lançar aos ares, reflete o homem ressuscitado. Tais símbolos foram criados por Deus para que o homem os contemple e admita uma verdade transcendente que é a ressurreição final.

Com efeito, ao ressuscitar, Cristo nos deu prova insofismável de sua divindade, confirmando-nos na fé, fortalecendo-nos na esperança, conduzindo-nos a uma vida mais perfeita, como afirma o Apóstolo São Paulo quando nos convida a renunciar ao velho fermento, que é o “fermento da malícia e da corrupção”. Se já ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto e afeiçoai-vos às coisas do Céu, não mais às da Terra.

A Ressurreição de Cristo (1441), afresco de
Fra Angélico no Convento de São Marcos (Florença)
O corpo de Cristo ressuscitado foi o mesmo que pendeu na cruz, e retirado do madeiro foi depositado no sepulcro pelo seus discípulos. No momento mesmo em que Jesus Cristo ressurgiu dos mortos, seu corpo ressurreto possuía os dons gloriosos da impassibilidade, da sutileza, da agilidade e da claridade, reflexos do transbordamento da glória da alma em liberdade, em que o corpo participa de todas essas qualidades.

Por que Cristo ressuscitou gloriosamente? Porque a sua ressurreição foi exemplar e a causa da nossa. Os santos, ao ressurgirem, terão seus corpos glorificados, como diz o Apóstolo, pois semearam na tristeza e ressuscitarão em glória. Se Cristo Nosso Senhor, submetido a todas aquelas humilhações da paixão e morte, mereceu glória incomparável, foi para brilhar aos olhos de todos aqueles que um dia ressuscitarão na mesma glória.

Sabemos pela teologia que a alma de Cristo — desde o primeiro instante de sua concepção — vivia em perfeita contemplação da divindade, vendo Deus face a face. Para que Cristo pudesse redimir o gênero humano, foi necessária como que uma interrupção desta visão, a fim de evitar que as alegrias decorrentes dela em sua alma não inundassem o seu próprio corpo mortal. Foram como que suspensos os benefícios da contemplação beatífica.

A Transfiguração de Cristo (1440), afresco de Fra Angélico no
 Convento de São Marcos (Florença).
Exceção houve na transfiguração ocorrida no monte Tabor, quando os Apóstolos puderam contemplar a divindade de Jesus Cristo: “Não conteis a ninguém o que vistes e ouvistes, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos”. O corpo de Nosso Senhor foi tomado de um esplendor que superou a luz do sol, pois o Filho de Deus, que havia assumido a humanidade enquanto Deus, não reteve nem impediu que sua divindade se refletisse em seu corpo.
Quando apareceu aos Apóstolos — afirma Santo Tomás de Aquino —, Ele agia à maneira de recipiente, emanando a auréola de seu corpo glorificado que se funde à cor natural do corpo humano, assim como o vidro colorido se torna resplandecente pela iluminação do sol, independendo de sua cor. Cristo quis aparecer aos seus discípulos com a sua cor natural, para que assim eles pudessem contemplá-Lo e serem confirmados na fé.

Assim como apareceu aos seus discípulos — diz a Sagrada Escritura —, Cristo desvaneceu-se aos olhos deles pelo dom da agilidade. Por esse dom Ele podia desaparecer, estando ainda presente ou separando-se e pondo-se em outro lugar com a rapidez do pensamento, assim como pela sutileza, que Lhe era intrínseca, pôde transpor a pedra do túmulo que O continha e a porta fechada do Cenáculo, onde se encontravam os discípulos reunidos.

Ora, todos esses acontecimentos depois da ressurreição de Cristo se deram — a exemplo das cicatrizes conservadas em suas divinas mãos e pés, bem como a do lado trespassado pela lança de Longino — para demonstrar que aquele era o mesmo Cristo que havia sido crucificado, morto, sepultado e que ali se encontrava vivo, glorioso e impassível, vencedor da morte e do pecado para a glória do Pai e do seu santo Nome.

Tornou esplendorosa a justiça de Deus por meio da obediência, que O levou a ser desprezado e objeto de opróbio pelo populacho — “Humilhou-se a si mesmo, fez-se obediente até à morte e morte de Cruz, pelo que Deus também O exaltou, e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes” (Fil. II 7-9).

Essa foi a gloriosa trajetória que Jesus Cristo quis percorrer para nos fazer ressurgir do pecado mortal — que é a morte da alma — para a vida da graça, por meio da penitência, sem protelação, prontamente, como Cristo ressurgiu ao terceiro dia. E com o firme e perseverante propósito de não mais pecar, com resolução de evitar tudo o que antes fora ocasião de morte e de pecado, vida nova e de justiça em ordem à vida eterna. Eis uma lição da ressurreição gloriosa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Modas e os seus diktats

Padre David Francisquini

Não deixa de ser curiosa a maneira como os meios de comunicação costumam tratar das modas. Via de regra, eles se utilizam de uma linguagem evasiva como “Você já conhece as tendências da moda?”; “Fique de olho nos desfiles e descubra qual será a tendência...”; “Tendências que vão bombar no próximo verão...”.
O dicionário define tendência como uma disposição natural que leva algo ou alguém a se mover em direção a outra coisa ou a outra pessoa. Afirma também que os estilistas se baseiam em tendências universais.
Como nos encontramos num processo revolucionário várias vezes secular, todo ele feito por etapas, que tem por origem última em determinadas tendências desordenadas, lutando por realizar-se, elas começam sempre por modificar as mentalidades, as expressões artísticas e os costumes.
Com efeito, tais tendências têm muito de natural, mas considerando o processo revolucionário como o descreve Plinio Corrêa de Oliveira na sua obra-prima Revolução e Contra-Revolução, elas podem ser facilmente induzidas, o que facilita a compreensão de onde elas vêm e para onde elas vão.
Afinal, quem dita tendências na moda? – As grandes grifes mundiais, ou seja, agentes revolucionários, com desígnios escusos, na pretensão de abalar convicções, costumes, modos de ser e de agir das pessoas que ainda prezam e vivem valores herdados da civilização cristã.  
Ainda que tais grifes quisessem apenas vender, mas o que é a publicidade moderna senão a exploração de um ou mais vícios capitais? Com tal objetivo, tais agentes avaliam o panorama das psicologias das almas, com suas tendências, contando sempre com o mecanismo dos vícios e das tendências desordenadas.
Com que objetivo? – Destronar Nosso Senhor e colocar Satanás em um trono; liquidar a boa ordem das coisas e preparar os gostos, os pendores, os humores para os vícios. Modificar o estado temperamental, para que as pessoas vão se habituando à cacofonia, ao mau gosto, a tudo quanto é desordenado; estimular os hábitos imoderados e tendenciosos na maneira de se vestir, cores extravagantes sem harmonia e beleza, a minimização das vestes rumo à nudez.
Trata-se de uma ofensiva que, muitas vezes, tenta transtornar a ordem espiritual, com desregramentos morais, para assim golpear a boa ordem no âmbito temporal. Ofensiva satânica visando atacar a glória de Deus, tentando destruir a ordem espiritual e temporal, sugerindo concessões ao mal.
Tudo isso é feito por meio de devotados agentes que atuam de maneira inversa à dos evangelizadores que edificaram a civilização cristã. É deprimente notar o descaso com que as modas indecentes vão penetrando e se avolumando rumo ao nudismo, em detrimento dos modos de se vestir do passado. 
Mais triste ainda é o desdém, a indiferença e a omissão cada vez maiores por parte daqueles que deveriam ser o sal da terra e a luz do mundo, que permitem pessoas indecorosas nos recintos sagrados e até mesmo aproximarem-se da mesa eucarística.
Tudo isso leva crer na existência de uma ação junto àqueles que deveriam ser o baluarte da fé e da ortodoxia a fim de os levar a um pacto com o mundo, permitindo a contaminação dos ambientes católicos com os erros modernos ao cerrar os olhos para o uso de roupas masculinas pelas mulheres, dizendo que não se deve incomodar com essas ninharias.
Porventura, não sabem eles, com base em Santo Ambrósio e São Tomás de Aquino, ser o próprio Deus quem vestiu as aves e os bichos, com penas e pelos? E que Ele mesmo diferenciou o sexo de cada um?  
Assim Deus pôs no homem um princípio inteligente e volitivo, estabeleceu a diferenciação entre homem e mulher e que cada um deve regrar os seus atos de acordo com essa diferença, vestindo-se convenientemente, conforme a natureza de cada sexo.
Diz Santo Ambrósio: "Não se conserva a castidade quando não se guarda a distinção dos sexos". Isto faz parte de um princípio, estabelecido pelo próprio Deus, que tem como base a própria natureza racional do homem e da mulher.
Daí, lermos nas Escrituras que é abominável o homem que se veste como mulher e a mulher como homem, porque é a transgressão da própria natureza.
Faz parte da boa ordenação das coisas que o homem ao atingir um grau de civilização e de progresso se dignifique em toda a sua plenitude na maneira de se vestir, nos hábitos comportamentais condizentes ao seu fim nesta terra, qual seja conhecer, amar e servir a Deus, preparando-se para a vida eterna.
O que as ditas modas introduzem é uma depravação do próprio homem em sua dignidade de ser racional e ontológico. Prepara-o para todas as aberrações conduzindo-o ao caos, visto que semelhante conduta reflete a negação do próprio Deus.
Quando o homem pecou no Paraíso terrestre, escondeu-se confuso e envergonhado de sua nudez. Deus Pai, com a sua bondade, teceu-lhe uma veste e o cobriu, como quem cobre as aves de penas, e os animais de pelos, e os campos de vegetação.
No ambiente de permissivismo moral, a distinção de um sexo do outro, vai se atenuando de tal forma que hoje se chega a fazer justificação da ideologia de gênero, escancarando a negação da evidência que a natureza se encarregou de estabelecer entre homem e mulher.
Diz São Tomás de Aquino: "Que o vestuário exterior deve corresponder à condição da pessoa, de conformidade do uso comum. Por isso, em si mesmo é pecaminoso uma mulher trazer trajes viris ou inversamente. Sobretudo por que pode ser causa de lascívia. O que a lei antiga expressamente proibia, porque os gentios usavam desses travestimentos pela superstição da idolatria.”
O igualitarismo constitui uma das características dominantes de hoje. Em nome da igualdade vai se impondo ao homem o sentimento anticristão. A igualdade entre os sexos representa uma das inúmeras manifestações de igualitarismo que leva a negação de Deus e da religião, afastando as pessoas de sua própria identidade. 
Uma instrução da Santa Sé, de 12-01-1930, afirma: "Muitas vezes, dada a oportunidade, o Sumo Pontífice reprovou e condenou acerbamente a maneira insolente de se vestir que se vai introduzindo entre as senhoras e jovens católicas.
Esse modo de vestir, não só ofende o decoro feminino e a modéstia, mas, o que é mais grave, vem em grave prejuízo dessas mesmas mulheres; e, o que é pior, leva miseravelmente tantos outros à condenação eterna.
Nada mais lógico e forçoso que os bispos, assim como convém aos ministros de Cristo, como se fossem uma só voz, oponham toda barreira a essa audácia e libertinagem da moda, suportando com serenidade e coragem as zombarias e insultos que receberam de espíritos malévolos por essa tomada de posição.
Os párocos e pregadores, nas ocasiões que se oferecerem, conforme recomenda São Paulo, "insistam, expliquem, increpem, exortem" para que as mulheres usem vestes que irradiem o pudor e que sejam o ornamento e defesa da virtude, e admoestem aos pais para que não deixem suas filhas usar vestes indecorosas.

Os pais conscientes da obrigação gravíssima que tem de cuidar, em primeiro lugar, da educação religiosa e moral dos filhos, fomentem, em seu espírito, por todos os meios, quer pela palavra, quer pelo exemplo, o amor da virtude da modéstia e da castidade".   

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Retorno à casa paterna

Pe. David Francisquini


Enquanto o ano de 2017 não começa de verdade, o Brasil assiste a uma onda de criminalidade que lembra cenas de filmes de terror, tamanha a crueldade e a selvageria cometidas nas ruas, nos presídios, e até mesmo no recinto familiar.
Neste último, onde outrora reinava a tranquilidade, a segurança e o bem-estar, com o desfazimento da família vêm se produzindo desequilíbrios alarmantes, cujo exemplo recente mais chocante foi a chacina ocorrida no final de 2016 em Campinas, que ceifou a vida de várias pessoas de uma família, inclusive da esposa e do filho do autor, que depois pôs fim à sua.
Se medidas drásticas não forem tomadas, e, sobretudo, se Deus não intervier contra esta brutal investida, impossível não vislumbrar o caos social.
Entre tais medidas estaria, de um lado, fazer cessar por vias legais todos os programas televisivos atentatórios à família e cujo desfecho final próximo ou remoto é o crime em suas diversas modalidades, e de outro, impedir a legalização das drogas, defendida até por um ex-presidente octogenário que nega a realidade em aras ao marxismo que professa: a Holanda, que as legalizou, está voltando atrás, tais foram os estragos irreparáveis causados pela legalização.
Poderá se perguntar, no tocante à mídia – televisiva, falada ou escrita – a liberdade de imprensa. Esta, entretanto, para ser verdadeira e legítima, não pode jamais prejudicar o bem comum, cuja defesa incumbe ao Estado. A propósito da liberdade ilimitada, exercida por uns poucos em detrimento do conjunto do País, convém repetir o que a propósito da Revolução Francesa exclamou Madame Roland: “Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.
             Foi devido a essa liberdade irrestrita e mal compreendida, cujo porta-voz incessante é a política dos Direitos Humanos, que gangues de presidiários do crime organizado vêm disseminando o terror em disputa pelo poder dentro e fora das prisões; que policiais fazem greves, enquanto outros são agredidos e mortos nas ruas; que se tornou possível a grande desordem ocorrida em Vitória–ES, com pilhagens, roubos, execuções e conflitos sangrentos que metem pânico na população ordeira, pacífica e desarmada.
Com efeito, como estamos longe da paz verdadeira, definida por Santo Agostinho como a tranquilidade da ordem! Entendida como a paz de Cristo no Reino de Cristo, essa ordem não está para ser inventada, porquanto ela existiu e está registrada na História, quando a sociedade destilou e colocou em prática os princípios do Evangelho formando a civilização cristã no período medieval.
Finda a Cristandade, num declinar ininterrupto, esta mesma civilização foi sendo carcomida pelos seus inimigos. Começando pelo tão propalado Renascimento, que substituiu a sociedade teocêntrica pela antropocêntrica, passando pela Revolução Protestante, quando foram lançados o espírito de dúvida e o liberalismo religioso, desfechou mais tarde no assim chamado Século das Luzes, ao mobilizar a razão para combater a verdadeira fé, depois na Revolução Francesa com a sua doutrina igualitária e laicista, até chegar ao comunismo.
Como esse processo não deve ser visto como uma sequência fortuita de causas e efeitos, que se foram sucedendo de modo inesperado, pois já em seu início continha as energias necessárias para reduzir a atos todas as suas potencialidades, como afirma Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução e Contra-Revolução, ele continua fazendo o seu caminho rumo ao abismo.
Com efeito, uma vez desencadeadas as más paixões, o homem passa a ter sede de absurdo e de pecado, e assim, de abismo em abismo, ele segue inexoravelmente a rota da bola de neve ou da pedra que rola do cimo de uma montanha até o vale mais profundo, incapaz de se lembrar da casa paterna onde imperavam a harmonia e a paz. Afinal, são poucos os que hoje se lembram da civilização cristã.
Por que não procurar reviver aquilo que fazia o homem feliz neste vale de lágrimas? Bons tempos foram aqueles proclamados pelo Papa Leão XIII: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava as nações”. Havia harmonia entre as classes sociais, pois todos obedeciam à Lei de Deus, conditio sine qua non para reinar a verdadeira paz que é a tranquilidade da ordem.
Fala-se tanto de paz... Aí está a ONU, supostamente a guardiã da paz mundial, mas do que valem seus esforços? De nada. Absolutamente nada. Há, a respeito dela, até um conceito com ares de verossimilhança, que se enuncia mais ou menos assim: “ONU = organismo com o qual ou sem o qual o mundo continua tal e qual”. Afinal, os seus meios são alheios, quando não diametralmente opostos à Lei de Deus e à sua divina sabedoria.
Portanto, este grande desejo de paz vem-se demonstrando inalcançável como a linha do horizonte, sempre equidistante e nunca atingida pela embarcação em alto mar. Bem considerada a questão, isto não constitui surpresa, visto que a busca de solução tem sido feita por meios tortuosos, quando não cúmplices. As discussões costumam girar em torno das desigualdades, da pobreza, do desemprego, da educação, da saúde.
Mas faz-se, propositadamente, tábula rasa a respeito daquilo que importa realmente, as questões morais, como se estas não embasassem fortemente os conceitos e a licitude estabelecida nas leis. Não esqueçamos que a Santa Igreja é a guardiã da moral, consubstanciada nos dez mandamentos da Lei de Deus.
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Podemos facilmente constatar que numa família de prole numerosa, mas carente de recursos, via de regra os filhos atingem a maioridade vencendo as dificuldades da vida com honra e dignidade, para a alegria dos pais e edificação da sociedade em que vivem e servem, constituindo exceção a ocorrência de um deles se tornar infrator ou criminoso contumaz.
Ora, a imensa maioria dos brasileiros mostra-se estarrecida com os feitos monstruosos perpetrados pelas chacinas ocorridas nos presídios e condolente em relação às crianças trucidadas no ventre materno nas clínicas de aborto e aos idosos que possam vir a ser objeto da eutanásia. Pois nesses casos há sempre a violação da lei natural.
Cabe ainda salientar que, à força de ir sabendo pelo noticiário de tantos e tais acontecimentos, estes vão se tornando banais, o que mais facilmente induz as pessoas à barbárie. O que se depreende da narrativa do noticiário sobre as tragédias é que a opinião pública acaba por se habituar às notícias, não reagindo nem tomando posição diante dos fatos baseada em princípios. Com tal estado de espírito, o martelar das notícias torna as pessoas insensíveis.
A noção de bem e de mal, conatural às pessoas, vai se evanescendo. Encontramo-nos à mercê de um mundo dominado pela insensibilidade, pelo egoísmo, pela indiferença, pela ausência crescente de Deus nos corações. O verdadeiro conceito de família como instituição divina vai assim desaparecendo de nossas mentalidades e considerações e, com ele o bem-estar, o equilíbrio e a harmonia.
Resta-nos buscar na oração as forças necessárias para enfrentar esta luta com certeza e esperança de melhores dias. A doutrina de Jesus Cristo é uma luz que nos guia até a vitória profetizada em Fátima, há um século, pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria. A Mãe de Deus, embaixadora celeste, disse em 1917 que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo. Pediu oração, penitência, mudança de vida e a devoção dos cinco primeiros sábados.