quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

DEIXAI VIR A MIM AS CRIANCINHAS. MAS AI DE QUEM AS ESCANDALIZAR!

*Padre David Francisquini

Ao contemplar o Natal do Menino Jesus, vem-nos ao espírito uma atmosfera repleta de luz, bondade, ternura e elevação. A gruta, que outrora fora uma estrebaria, transformou-se no centro dos corações dos homens, pois foi ali que Deus se tornou menino para fazer parte da natureza humana e elevá-la ao mais alto grau, ao ápice da criação.
Um Deus que se faz criança – frágil, delicada, terna, nobre e real, pois é da dinastia de David – torna-se herdeiro de um trono, pois nasceu para reinar na sociedade, nos reinos, nas leis, na magistratura, nos governos e nos corações, alçando os homens à dignidade de seus filhos. Foi Ele quem disse que ninguém pode amar mais os seus do que quem dá a vida por eles.
Jesus é um lírio no campo, com todo o seu perfume e alvura. Por isso os anjos cantam no Céu a melodia que ouvimos na noite de Natal: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Enquanto Ele se une às criaturas racionais, os benefícios do Deus-menino são estendidos a todos os seres animados e inanimados, mas, sobretudo, aos homens.
Certamente os pastores levaram suas crianças para adorá-Lo e oferecer-Lhe presentes. Em sua vida pública Jesus exclamou: "Deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o reino do céu". E também: "Quem escandalizar uma dessas criancinhas que creem em mim melhor lhe fora que atassem uma pedra de moinho e lhe atirassem nas profundezas do mar, pois os seus anjos veem a face do meu Pai que está no céu".
Natal! Como não pensar no Menino Jesus, na primeira Comunhão das crianças? Aquele que nasceu na gruta de Belém se torna nossa comida e bebida em nossos altares. Aquele que se reclinou no presépio quer se reclinar nos corações de todas as crianças que já completaram o uso da razão, mais ou menos aos sete anos, como ordenou o Papa São Pio X.
Para se entender melhor o Natal e a Eucaristia, bem como o amor que Cristo depositava nas crianças por causa de sua inocência e humildade, convém expor as palavras do próprio decreto que as admite à primeira Comunhão:
"As páginas do Santo Evangelho manifestam às claras o singular amor que Jesus Cristo teve aos meninos, durante os dias da sua vida mortal. Era suas delícias estar no meio deles; costumava impor-lhes as mãos, abraçava-os e abençoava-os. Levou a mal que os seus discípulos os apartassem dele, repreendendo-os com aquelas graves palavras: deixai que os meninos venham a mim, e não os proibais, pois deles é o reino de Deus (Mc 10, 13. 14. 16)”.
E continua: “E quanto estimava a sua inocência e a candura de suas almas, bem o manifestou quando, chamando a um menino, disse a seus discípulos: Na verdade vos digo, se não vos fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Todo aquele que se humilhar como este menino, este é o maior no reino dos céus: e aquele que receber um menino tal como estes em meu nome, a Mim é que recebe (Mt 18, 3. 4. 5)".
Em confirmação ao que ensinou o Papa São Pio X, será citado o texto: "O centenário do decreto Quam singulari é uma oportunidade providencial para lembrar e insistir em que as crianças tomem a primeira comunhão tão logo atinjam a idade da razão, que hoje parece até ter-se antecipado. Não é recomendável, portanto, a prática cada vez mais comum de aumentar a idade para a primeira comunhão. Pelo contrário: é preciso antecipá-la ainda mais".
Essas palavras textuais são de autoria do cardeal Antonio Llovera Cañizares, então Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, e foram publicadas no  L'Osservatore Romano,  no dia 8 de agosto de 2010. Em 2005, o cardeal Dario Castrillón Hoyos, Prefeito da Congregação para o Clero, declarou por ocasião do Ano da eucaristia:
Não são poucos os que, ao lado de São Pio X, estão convictos de que essa prática de levar as crianças a terem acesso à primeira comunhão a partir da idade de sete anos trouxe à Igreja grandes graças. Não nos devemos esquecer, além de tudo, de que na Igreja primitiva o sacramento da eucaristia era administrado aos recém-nascidos, logo depois do batismo, sob a espécie de poucas gotas de vinho. Permitir que as crianças possam receber Jesus eucarístico o mais cedo possível foi, por muitos séculos, um dos pontos firmes da pastoral para os menores da Igreja, costume restaurado por São Pio X em sua época, e louvado por seus sucessores".
No Cânon 914 do Código de Direito Canônico é estabelecida a obrigação dos pais e

do pároco de cuidar para que as crianças, ao atingirem o uso da razão, se preparem convenientemente, a fim de se nutrirem o quanto antes desse alimento divino, após a confissão sacramental.  
Antecipar o máximo possível a idade para admissão das crianças pequenas à primeira comunhão e, por conseguinte, aos outros sacramentos. De um lado, pode ser a reafirmação do primado da graça, e de outro, pode evitar que os pais e as crianças percebam como um pedágio os longos anos de catequese preparatória. Diante da quantidade cada vez maior de adolescentes que se afastaram da prática cristã, não seria melhor confiar mais na graça que nos meios humanos? E não seria também melhor esperar que, mesmo que se afastem – o filho mais jovem da parábola evangélica também se afastou –, a memória dos sacramentos continue neles como uma coisa boa, e não como um esforço cansativo semelhante ao pagamento de um pedágio?”(Cfr. Paolo Mattei, in "Por toda parte a Igreja de Cristo se difunde graças a crianças santas")
Na memória do jovem da parábola, a casa do pai, ainda que distante, continuava a ser um lugar bom, ao qual de alguma forma ele sempre poderia regressar. Palavras de Santo Agostinho reconfortam tal esperança: "Quacumque in parvulis sanctis Ecclesia Christi diffunditur / Por toda parte, a Igreja de Cristo se difunde graças às crianças santas".
É extraordinário ressaltar a importância da comunhão para as crianças, no momento em que uma crise sem precedentes abala a sociedade, sobretudo a família, e transtorna os costumes morais.
Não menos urgente é preocupar-se com as crianças instituindo uma pastoral que não as afaste da comunhão, mas pelo contrário as atraia, pois aí estão as drogas, a criminalidade infantil, a prostituição, os maus exemplos, entre os quais os divertimentos eletrônicos e o acesso rápido à tecnologia da comunicação.
É mais fácil hoje a criança cair nas garras do demônio do que nos séculos XIX e XX,
pois os meios de perdição infantil estão a um click de computador. A única solução é a sagrada eucaristia, Jesus que se torna criança e quer para Si as crianças, antes que elas caiam nas garras de satanás.

O progressismo, ao afastar as crianças da Primeira Comunhão, ao aumentar a idade para que elas se aproximem da sagrada mesa, as perde para o mundo moderno. Devemos comemorar o Natal de Nosso Senhor nesta perspectiva, procurando o tribunal da confissão, a mesa da Eucaristia e, colocar em evidência como centro de toda a vida cristã paroquial, a eucaristia e a devoção à Nossa Senhora.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Maria Imaculada, obra-prima de Deus

Padre David Francisquini



Ao considerar o universo em sua unidade e variedade, em sua perfeição e esplendor, em sua hierarquia harmônica e matizada, não se pode deixar de admirar nas criaturas a grandeza sem medida de uma ordem perfeita e equilibrada. Na sua simplicidade e alvura, o lírio, por exemplo, foi enaltecido pelo divino Salvador, quando disse que nem Salomão em toda a sua pompa e majestade se vestiu como um deles.
O sol no seu esplendor faz as criaturas ser aquilo que elas são: um encanto inigualável para o próprio Criador, para os anjos e para os homens.  A gota de orvalho, que não existiria ou não seria vista sem a luz, constitui um pequeno mundo de maravilhas, sobretudo quando repousam sobre graciosas e coloridas pétalas de rosa, que nenhuma troca amistosa de cortesias emula em beleza, leveza e graça. O cristal puro e alvo, atravessado pelos raios do sol é capaz de transformar um ambiente num mundo de fadas. Assim Deus, na sua infinita sabedoria, criou o mundo para cercar o homem de perfeições e de maravilhas que fossem luzes reflexas d’Ele e assim tributar-Lhe as devidas homenagens. Em outro patamar da hierarquia encontram-se as pedras preciosas e semipreciosas, como o jaspe, a esmeralda, a ametista, o brilhante, entre outras.




 Entre os metais, o ouro e a prata são símbolos que refletem realidades superiores, mais altas, mais nobres e distintas. Em seguida, podemos contemplar as flores, as plantas, os arbustos e as árvores. Em outro escalão as aves, os pássaros e tudo que enaltece a Deus e proclama a Sua magnificência dentro desta ordem inexcedível. Há, entretanto, algo mais além, pois tal ordem foi posta por Deus para refletir a Sua obra-prima, Maria Santíssima.



Para utilizar linguagem figurada e simbólica, a Mãe de Deus é um oceano de perfeições e de graças por ser Ela quem é. O grande devoto de Nossa Senhora, São Luís Maria Grignion de Montfort, ao descrevê-La assim se expressou: “Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria. Este grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os anjos chamam o tesouro do Senhor, e de cuja plenitude os homens se enriquecem”.


Convém ressaltar que Cristo, por ser Deus, não podia ter pecado original. Maria Santíssima foi isenta do pecado por um especial privilégio outorgado pelo próprio Deus, por ter sido eleita para d’Ele se tornar Mãe. Ao agir assim, a Santíssima Trindade fez o caminho inverso da primeira mulher que introduziu o pecado no Mundo por sua desobediência, dispondo que Maria fosse o contrário dessa mulher ao inocentá-La e isentá-La da nódoa do pecado original. O que Eva perdeu por orgulho e desobediência, Maria conquistou pela sua humildade e obediência, merecendo que o próprio Deus fizesse n’Ela maravilhas.
O Anjo Gabriel chamou-a de “cheia de graças” e Santa Isabel, de “bendita entre todas as mulheres”. A inteligência de Maria não se ofuscou, sua vontade não se enfraqueceu, e Ela nunca teve inclinação para o mal. Maria conquistou todas as graças e se tornou agradável a Deus. E pelo privilégio singular de ter sido concebida sem pecado, nasceu imaculada – portanto, com o direito, por nascimento e por conquista, à prerrogativa perfeita de ser Mãe de Deus, para que seu Filho redimisse o gênero humano das consequências do pecado original.
Após afirmar que todos pecaram em Adão, São Paulo sustenta com fundamento que, na vontade de Adão, como chefe e cabeça do gênero humano, estavam todas as vontades. Maria Santíssima, pertencendo à raça humana, pertenceu a uma raça pecadora, mas sem ter jamais pecado, pois Deus, por privilégio singular, A preservou no primeiro instante de contrair a nódoa original, já que era predestinada a ser a Mãe do Salvador do mundo. Repugna ao próprio Deus conviver e ser gerado por uma mãe pecadora, pois Jesus Cristo deveria ser a coroa e a perfeição de todas as criaturas.

Por isso a iconografia representa Maria Santíssima esmagando a serpente infernal e tendo os braços abertos para indicar que Ela trouxe o Autor da graça, o Redentor divino que nos deu a redenção e abriu as portas do Céu. No dia 8 de dezembro, o Papa Pio IX proclamou solenemente o dogma de sua Imaculada Conceição. Com estas palavras presto o meu tributo filial à Mãe de Deus, pedindo-lhe que vele por todos os leitores.