sábado, 25 de fevereiro de 2017

Retorno à casa paterna

Pe. David Francisquini


Enquanto o ano de 2017 não começa de verdade, o Brasil assiste a uma onda de criminalidade que lembra cenas de filmes de terror, tamanha a crueldade e a selvageria cometidas nas ruas, nos presídios, e até mesmo no recinto familiar.
Neste último, onde outrora reinava a tranquilidade, a segurança e o bem-estar, com o desfazimento da família vêm se produzindo desequilíbrios alarmantes, cujo exemplo recente mais chocante foi a chacina ocorrida no final de 2016 em Campinas, que ceifou a vida de várias pessoas de uma família, inclusive da esposa e do filho do autor, que depois pôs fim à sua.
Se medidas drásticas não forem tomadas, e, sobretudo, se Deus não intervier contra esta brutal investida, impossível não vislumbrar o caos social.
Entre tais medidas estaria, de um lado, fazer cessar por vias legais todos os programas televisivos atentatórios à família e cujo desfecho final próximo ou remoto é o crime em suas diversas modalidades, e de outro, impedir a legalização das drogas, defendida até por um ex-presidente octogenário que nega a realidade em aras ao marxismo que professa: a Holanda, que as legalizou, está voltando atrás, tais foram os estragos irreparáveis causados pela legalização.
Poderá se perguntar, no tocante à mídia – televisiva, falada ou escrita – a liberdade de imprensa. Esta, entretanto, para ser verdadeira e legítima, não pode jamais prejudicar o bem comum, cuja defesa incumbe ao Estado. A propósito da liberdade ilimitada, exercida por uns poucos em detrimento do conjunto do País, convém repetir o que a propósito da Revolução Francesa exclamou Madame Roland: “Liberdade, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.
             Foi devido a essa liberdade irrestrita e mal compreendida, cujo porta-voz incessante é a política dos Direitos Humanos, que gangues de presidiários do crime organizado vêm disseminando o terror em disputa pelo poder dentro e fora das prisões; que policiais fazem greves, enquanto outros são agredidos e mortos nas ruas; que se tornou possível a grande desordem ocorrida em Vitória–ES, com pilhagens, roubos, execuções e conflitos sangrentos que metem pânico na população ordeira, pacífica e desarmada.
Com efeito, como estamos longe da paz verdadeira, definida por Santo Agostinho como a tranquilidade da ordem! Entendida como a paz de Cristo no Reino de Cristo, essa ordem não está para ser inventada, porquanto ela existiu e está registrada na História, quando a sociedade destilou e colocou em prática os princípios do Evangelho formando a civilização cristã no período medieval.
Finda a Cristandade, num declinar ininterrupto, esta mesma civilização foi sendo carcomida pelos seus inimigos. Começando pelo tão propalado Renascimento, que substituiu a sociedade teocêntrica pela antropocêntrica, passando pela Revolução Protestante, quando foram lançados o espírito de dúvida e o liberalismo religioso, desfechou mais tarde no assim chamado Século das Luzes, ao mobilizar a razão para combater a verdadeira fé, depois na Revolução Francesa com a sua doutrina igualitária e laicista, até chegar ao comunismo.
Como esse processo não deve ser visto como uma sequência fortuita de causas e efeitos, que se foram sucedendo de modo inesperado, pois já em seu início continha as energias necessárias para reduzir a atos todas as suas potencialidades, como afirma Plinio Corrêa de Oliveira em seu livro Revolução e Contra-Revolução, ele continua fazendo o seu caminho rumo ao abismo.
Com efeito, uma vez desencadeadas as más paixões, o homem passa a ter sede de absurdo e de pecado, e assim, de abismo em abismo, ele segue inexoravelmente a rota da bola de neve ou da pedra que rola do cimo de uma montanha até o vale mais profundo, incapaz de se lembrar da casa paterna onde imperavam a harmonia e a paz. Afinal, são poucos os que hoje se lembram da civilização cristã.
Por que não procurar reviver aquilo que fazia o homem feliz neste vale de lágrimas? Bons tempos foram aqueles proclamados pelo Papa Leão XIII: “Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava as nações”. Havia harmonia entre as classes sociais, pois todos obedeciam à Lei de Deus, conditio sine qua non para reinar a verdadeira paz que é a tranquilidade da ordem.
Fala-se tanto de paz... Aí está a ONU, supostamente a guardiã da paz mundial, mas do que valem seus esforços? De nada. Absolutamente nada. Há, a respeito dela, até um conceito com ares de verossimilhança, que se enuncia mais ou menos assim: “ONU = organismo com o qual ou sem o qual o mundo continua tal e qual”. Afinal, os seus meios são alheios, quando não diametralmente opostos à Lei de Deus e à sua divina sabedoria.
Portanto, este grande desejo de paz vem-se demonstrando inalcançável como a linha do horizonte, sempre equidistante e nunca atingida pela embarcação em alto mar. Bem considerada a questão, isto não constitui surpresa, visto que a busca de solução tem sido feita por meios tortuosos, quando não cúmplices. As discussões costumam girar em torno das desigualdades, da pobreza, do desemprego, da educação, da saúde.
Mas faz-se, propositadamente, tábula rasa a respeito daquilo que importa realmente, as questões morais, como se estas não embasassem fortemente os conceitos e a licitude estabelecida nas leis. Não esqueçamos que a Santa Igreja é a guardiã da moral, consubstanciada nos dez mandamentos da Lei de Deus.
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Podemos facilmente constatar que numa família de prole numerosa, mas carente de recursos, via de regra os filhos atingem a maioridade vencendo as dificuldades da vida com honra e dignidade, para a alegria dos pais e edificação da sociedade em que vivem e servem, constituindo exceção a ocorrência de um deles se tornar infrator ou criminoso contumaz.
Ora, a imensa maioria dos brasileiros mostra-se estarrecida com os feitos monstruosos perpetrados pelas chacinas ocorridas nos presídios e condolente em relação às crianças trucidadas no ventre materno nas clínicas de aborto e aos idosos que possam vir a ser objeto da eutanásia. Pois nesses casos há sempre a violação da lei natural.
Cabe ainda salientar que, à força de ir sabendo pelo noticiário de tantos e tais acontecimentos, estes vão se tornando banais, o que mais facilmente induz as pessoas à barbárie. O que se depreende da narrativa do noticiário sobre as tragédias é que a opinião pública acaba por se habituar às notícias, não reagindo nem tomando posição diante dos fatos baseada em princípios. Com tal estado de espírito, o martelar das notícias torna as pessoas insensíveis.
A noção de bem e de mal, conatural às pessoas, vai se evanescendo. Encontramo-nos à mercê de um mundo dominado pela insensibilidade, pelo egoísmo, pela indiferença, pela ausência crescente de Deus nos corações. O verdadeiro conceito de família como instituição divina vai assim desaparecendo de nossas mentalidades e considerações e, com ele o bem-estar, o equilíbrio e a harmonia.
Resta-nos buscar na oração as forças necessárias para enfrentar esta luta com certeza e esperança de melhores dias. A doutrina de Jesus Cristo é uma luz que nos guia até a vitória profetizada em Fátima, há um século, pelo triunfo do Imaculado Coração de Maria. A Mãe de Deus, embaixadora celeste, disse em 1917 que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo. Pediu oração, penitência, mudança de vida e a devoção dos cinco primeiros sábados. 

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